Ocupação prossegue em colégio federal que teve prova do Enem adiada no Rio

Rio - No Colégio Pedro II do Humaitá, na zona sul do Rio de Janeiro, a ocupação de estudantes prossegue independentemente da presença de profissionais do Instituto Nacional de Educação Profissional (Inep) que permanecerão no local até o fim da tarde para orientar estudantes desavisados que cheguem ao local para prestar a prova do Enem.

Dos 13 locais de prova no Estado do Rio que tiveram a realização do exame adiada, oito são unidades do Pedro II, tradicional rede de escolas federais no Rio. No Rio, o número de inscritos no Enem é de 550 mil, segundo o Inep.

De acordo com uma funcionária do Pedro II do Humaitá, que não quis se identificar por não ter sido autorizada a dar entrevista, nenhum desavisado chegou aos portões da escola neste sábado (5) pela manhã.

O colégio está ocupado pelos alunos desde a última segunda-feira, dia 31, em protesto contra as medidas do governo de Michel Temer na área da educação. Por causa da ocupação, os estudantes que fariam as provas na unidade foram avisados de que teriam a data transferida para 3 e 4 de dezembro. Neste sábado, além de manter funcionários na recepção, o Inep pregou um aviso no portão do colégio comunicando as alterações.

"Lamento, sinceramente, pelos transtornos causados aos inscritos alcançados por esta alternativa de solução, a única que se apresentou viável para evitar um prejuízo maior", traz o aviso assinado pela presidente do Inep, Maria Inês Fini. O texto informa ainda da "absoluta impossibilidade de efetuar a aplicação do exame com a indispensável segurança para os inscritos", trecho que causou a revolta dos estudantes.

"Por que insegurança? Eles acham que vamos atacar os estudantes? Somos estudantes também e nunca quisemos atrapalhar o Enem. Tentamos uma comunicação com o governo para tentar que a prova acontecesse junto com a ocupação e não conseguimos nenhum diálogo", disse Isaac Galvão, de 18 anos, aluno do primeiro ano do ensino médio, o único destacado pelo grupo de manifestantes para conversar com a imprensa.

Ele conta que o número de estudantes do colégio que participam da ocupação varia de 50 a 100, dependendo do dia da semana, e que, pelas reuniões internas realizadas para organizar o movimento, não há perspectiva de desocupação. "Não acredito que teremos saído até o início de dezembro (quando deve acontecer a prova para os alunos que não realizarem neste fim de semana)", disse Isaac.

Na manhã deste sábado de chuva no Rio, o único movimento nos portões do Colégio Pedro II do Humaitá era de saída de manifestantes que prestariam o exame em outras unidades.

Victor Iglesias, de 17 anos, deixou a escola depois de visitar amigos para se dirigir para casa, por volta das 10h, e em seguida fazer a sua prova. Ele deixou a ocupação na sexta-feira por causa do exame. "Mas, na verdade, não vejo problema em participar da ocupação e prestar o Enem, porque me preparei o ano inteiro e não na última semana", afirmou.

O estudante quer ser professor de Geografia "para continuar discutindo política dentro da escola". Iglesias conta que estudava em um colégio particular antes de ir para o Pedro II. "No colégio particular, a gente não se mistura com estudantes de outras classes sociais. Não tem debate de nada. Aqui a gente aprende de verdade. A gente aprende a criticar, a pensar e a gente não quer abrir mão disso", disse.

A ocupação das escolas é um protesto contra duas principais pautas do governo Temer que devem alterar o sistema educacional no País: a Proposta de Emenda Constitucional 241, que cria o teto dos gastos, e a Medida Provisória do Ensino Médio (746). Os estudantes protestam também contra o movimento "Escola sem Partido", que pretende criar restrições para impedir professores de expressarem opiniões e posições políticas em sala de aula.

"Nunca houve participação de partido nas ocupações. A decisão de tomar nossa escola foi nossa, tomada em assembleias de estudantes", afirmou Isaac.

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