Operação Lava Jato

Doleiros de Cabral 'estocavam' dinheiro vivo em salas comerciais, diz delator

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

São Paulo

  • Carlos Magno/CCS

Na mais nova denúncia contra o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) - a sexta acusação, a sexta vez que ele vai para o banco dos réus -, a Procuradoria da República detalha ainda mais a complexa rede de lavagem de dinheiro utilizada pelo grupo do peemedebista e revela que, além do ex-governador, os doleiros que operavam para ele também mantinham relação "estreita" com a Odebrecht e chegavam a usar salas comerciais no Rio de Janeiro para "estocar" o excedente do dinheiro ilícito que movimentavam.

"Existiam no Brasil quartos que serviam como caixa-forte para guardar valores em espécie; estes quartos eram em salas comerciais espalhadas pela cidade de Rio de Janeiro e as utilizavam durante cerca de 1 ano", disse o delator Enrico Machado, dono de uma instituição financeira em Antígua que atuava no mercado paralelo e tinha o doleiro Vinícius Claret, o "Juca Bala" entre seus clientes.

O depoimento foi utilizado na denúncia para detalhar a atuação de "Juca Bala", o elo encontrado pela Procuradoria entre o Setor de Operações Estruturadas - nome formal do "Departamento de Propinas" da Odebrecht - e o ex-governador do Rio, acusado de receber US$ 3 milhões da empreiteira via transferências internacionais feitas pelo doleiro.

Enrico Machado fala sobre a atuação do grupo de "Juca Bala", preso na sexta-feira, 3, no Uruguai por determinação do juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Criminal Federal do Rio, e também denunciado nesta quarta-feira, 8.

O delator não especifica se os valores "estocados" foram destinados a Cabral ou a outros integrantes do grupo do peemedebista. Enrico, contudo, relata que "Juca Bala" e seu sócio Claudio Souza atuam há mais de dez anos no mercado paralelo.

Segundo a versão do delator, "Juca Bala" e outros doleiros atuavam no Rio até 2002, mas decidiram se mudar para o Uruguai pois estavam "sendo monitorados".

"Quando a organização pertencente à casa de câmbio controlada por Modok Esser identificou que estavam sendo monitorados, interromperam as operações no Rio de Janeiro e resolveram transferir as atividades para Montevidéu no Uruguai", afirmou.

Na ocasião, o responsável por abrir a empresa de fachada no país teria sido o advogado Oscar Algorta, denunciado pela Lava Jato em 2015 sob acusação de ter ajudado o ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró a lavar dinheiro na compra de um apartamento de R$ 7,5 milhões em Ipanema, na zona sul do Rio, em 2009.

Algorta foi apontado como responsável pela criação da offshore Jolmey no país, utilizada por Cerveró para lavar de dinheiro. "Algorta sabia que estava auxiliando uma empresa de forma ilegal, e que deveria dar uma fachada de legalidade às operações. Juca e Peter eram responsáveis por contatar, fechar e liquidar as operações de câmbio no mercado paralelo (dólar-cabo) no Uruguai para clientes, no Brasil, utilizando-se da estrutura operacional no Brasil", seguiu o delator, afirmando que esta casa de câmbio nunca teve autorização do Banco Central do Uruguai para funcionar.

"Posteriormente abriram uma casa de câmbio legalizada, mas que não estava no nome destes. (Eles) se comunicavam inicialmente com os funcionários localizados no Brasil através de programas como MSN com criptografia, SECWAY e um servidor que rodava no programa Citrix, e em um segundo momento através de Skype, Wickr e Wire", contou Enrico.

"Juca Bala" e seu sócio Claudio Souza estão presos no Uruguai, onde aguardam o processo de extradição para o Brasil. Os dois também foram denunciados e se tornaram réus nesta quarta-feira, 8, acusados de organização criminosa, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo os pagamentos para Sérgio Cabral e seu grupo no exterior.

A reportagem entrou em contato com o escritório que defende o ex-governador Sérgio Cabral e deixou recado, mas não houve retorno da defesa do peemedebista até o encerramento desta matéria

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