Saxofone salvou músico da guerra

Luiz Alexandre Souza Ventura, especial para O Estado

Santos

Do terraço da casa de Amintas José da Costa, o maestro Sarrafo, de 98 anos, em Itanhaém, no litoral sul paulista, o som do saxofone invade os espaços, reverbera pela vizinhança e ecoa por entre as casas. O instrumento é seu companheiro há mais 80 anos - e o salvou da guerra.

O maestro nasceu em Aracaju, em janeiro de 1919. "Quando era menino, havia várias bandas na cidade, com muitos músicos e instrumentos. Corríamos atrás das bandas e queríamos tocar", diz.

Costa conta que começou a aprender música aos 14 anos, com o professor José Viana, então 1.º sargento do Exército. "Ele havia montado uma banda de meninos. Primeiro conheci o clarinete e depois, o saxofone", conta Sarrafo, que recebeu o apelido quando morava em São Paulo, por sua habilidade em ler partituras. "As pessoas diziam: 'toca o sarrafo'. Acabou se tornando minha marca."

Em 1937, com a meta de seguir a carreira de músico, foi para o Rio de Janeiro, onde a história mais importante de sua vida começou a tomar forma.

Lá, entrou para o serviço militar e chegou a 2.º sargento músico da Força Pública, além de fazer parte do Grupo de Artilharia Antiaérea. Entre 1940 e 1943, frequentou como ouvinte a Escola Nacional de Música no Rio de Janeiro e estudou clarinete. "Como não tinha terminado nem o primário, não pude me graduar, mas aprendi as mesmas técnicas dos que estavam na graduação", relembra.

Em 1943, foi convocado para a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lutar na 2.ª Guerra Mundial. "Embarquei num navio com 200 homens e viajamos por uma semana até Recife, onde faríamos treinamento e aprenderíamos tiro de canhão."

Segundo o Exército, mais de 25 mil homens e mulheres fizeram parte da FEB, responsável pela participação do Brasil, com os aliados, na campanha da Itália, entre 1944 e 1945. Além do envio de tropas para a Europa, houve esforço conjunto das forças brasileiras de terra, mar e ar para defender o triângulo formado por Natal, Recife e Fernando de Noronha, por servirem de base de operações. Recife foi a cidade que agrupou o maior número de militares.

Sax na mão

Costa chegou no Recife com o saxofone na mão e um oficial exigiu prova de que ele sabia tocar. "Mostrei o que conhecia e recebi a missão de ensinar músicas militares aos recrutas. Me entregaram um livro com as canções, aprendi as letras e, com as melodias tocadas no saxofone, ensinei soldados a cantar. Naquela época não havia outro músico na base, então também ensinei como tocar corneta."

O efeito positivo da música no ânimo do batalhão decidiu o destino do maestro, que passou cerca de dois anos na base. "Queria viajar, lutar, mas jamais recebi autorização. Sempre que era escalado, o comando da base impedia a minha partida. Chegaram a pensar que eu era filho do comandante", lembra, sorrindo. "Foi a música que me manteve lá e salvou a minha vida", afirma o maestro. O Brasil perdeu 454 homens nesta campanha, de acordo com o Exército.

Com o fim da guerra, Sarrafo encerrou a carreira militar e iniciou vida de músico profissional, com inúmeras participações em programas de rádio, nos tempos em que sonoras e aberturas de novelas eram executadas ao vivo.

Na sequência veio a TV, ainda em preto e branco, quando o público conseguia ver quem comandava os instrumentos de sopro. "Participei da orquestra do Silvio Santos e do seu primeiro programa exibido no SBT. Também estive com o Chacrinha, na TV Globo", recorda.

Aposentado, vive em Itanhaém há 30 anos, onde foi professor da Casa da Música, da Prefeitura, e construiu uma escola no terraço da própria casa. "Quero que as pessoas tenham com a música a oportunidade que tive." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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