Correção: 51 dias depois: 'seu coração chegou'

Clarissa Thomé

Rio

A nota enviada em 25/03 continha uma incorreção. No quinto parágrafo, o nome do cirurgião cardiovascular Bruno Marques foi trocado pelo do anestesista Marcelo Ramalho. Segue o texto corrigido:

Fazia 51 dias que a enfermeira Fabiana Ebani, de 34 anos, estava ligada a um coração artificial, quando veio o aviso para que fizesse jejum. Manteve a tranquilidade. Por duas vezes haviam suspendido sua alimentação, sinal de que o transplante estava próximo. Alarme falso, em ambas as ocasiões. Se deixou emocionar apenas quando teve a confirmação na manhã seguinte, sexta-feira, dia 17. "Seu coração chegou", disseram os médicos.

A notícia pôs fim a uma espera que já durava um ano, desde que Fabiana havia sido diagnosticada com forma grave de miocardiopatia dilatada, doença em que o coração passa a ter dificuldade de bombear o sangue. Metade desse período passou internada, conforme o Estado publicou em 11 de março. Com o coração cada vez mais fraco, bombeando 800 ml de sangue por minuto, quando o ideal são 4 litros, precisava ser monitorada. Em 24 de janeiro, sofreria seis paradas cardíacas e o órgão perderia de vez a função. Foi preciso ligá-la a um coração artificial, projetado para funcionar por um mês. Fabiana extrapolou em muito esse tempo.

"O caso de Fabiana é muito maior do que o transplante. É uma paciente que primeiro permaneceu em suporte por três dias, para avaliar se ela tinha condições neurológicas, depois foi ligada a um coração artificial por 51 dias. Não há muitos grupos no Brasil fazendo esse tipo de trabalho", afirmou o anestesista Marcelo Ramalho, da equipe do Hospital CopaStar que operou a enfermeira.

Na manhã do transplante, enquanto era levada para a sala cirúrgica, enfermeiros, médicos e técnicos de enfermagem pararam para acompanhá-la. "O hospital inteiro parou. As pessoas choravam. Eu estava calma, estava esperando isso há tanto tempo. Não fiquei nervosa", conta Fabiana. "No dia seguinte, me trouxeram balões com formato de coração."

Há uma semana, novo susto: a enfermeira teve uma reação a um dos medicamentos e sofreu uma parada respiratória. Precisou ser sedada e entubada. "Não era para eu ir, mesmo. Minha hora ainda não chegou", brincou. "O transplante foi muito tranquilo. Apesar de ser uma cirurgia complexa, não teve intercorrência. O coração bateu imediatamente", comemorou o cirurgião cardiovascular Bruno Marques. "Em três dias, ela já estava no quarto."

No período em que ficou internada, Fabiana soube de possíveis doadores. Algumas vezes, os órgãos não eram compatíveis. Em outras, as famílias acabaram recusando a doação - no ano passado, de 5.939 famílias consultadas, 2.571 (ou 43%) não deram a autorização necessária, segundo dados compilados pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Duas mil pessoas que estavam à espera de um órgão morreram; dessas, 82 eram crianças.

Fabiana sabe pouco sobre a dona do seu coração: uma mulher, com idade próxima da sua. "Não sei se ela tinha filho, não sei nada. Só queria agradecer à família. É muito difícil pensar que alguém teve de perder a vida para que eu sobrevivesse. Mas eles salvaram minha vida. Vou ter mais tempo para o meu filho", emocionou-se Fabiana, mãe de Kauê, de 8 anos, a quem vai reencontrar.

A enfermeira conta que os primeiros dias do hospital não foram fáceis. "Eu olhava de cara feia para as enfermeiras, tinha raiva por estar aqui. Depois, viramos uma família. As enfermeiras de outros setores vêm me visitar, as pessoas fizeram uma corrente de oração em torno de mim", diz Fabiana.

Tatuagem

Os dias pós-transplante são dedicados à fisioterapia, para recuperar as forças dos músculos, fisioterapia respiratória e fonoaudiologia. Tem, quase o tempo todo, a companhia do marido, o técnico de segurança do trabalho Sandro Prado, de 36 anos. Cada um deles exibe uma tatuagem de coração feita no braço - ela, no esquerdo; ele, no direito.

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