Idoso aceita negociar grafite em muro pintado de cinza no Beco do Batman

Priscila Mengue

O cinza tão associado à política antipichação da gestão João Doria amanheceu nesta terça-feira, 11, no mais conhecido ponto de arte de rua de São Paulo, o Beco do Batman, na Vila Madalena, zona oeste da cidade. A mudança não tem, contudo, relação com a administração municipal, mas com a iniciativa do aposentado João Batista da Silva, de 70 anos. Na segunda-feira, 10, ele passou grande parte do dia pintando o muro da própria casa, na esquina da Rua Gonçalo Afonso, como uma forma de "protesto" contra as condições do local, bastante frequentado mesmo de noite.

"Isso aqui está em um estado deplorável. Não é por causa dos grafites. Não tenho nada contra eles: tinha grafite no meu muro há quase 20 anos. O problema é que as pessoas ficam a noite toda aqui. Usavam o meu portão de poleiro", diz ele, que, no fim da manhã aceitou voltar a ceder o espaço para artistas.

Segundo o grafiteiro Binho Ribeiro, que já ocupava a maior parte do muro, a nova pintura deve começar já na quinta-feira, 13. "Não sou contra o que foi feito pelo Seu João, e acho que o resultado pode ser positivo. Mas temos que agir logo, porque, se deixar assim, o muro vai ficar detonado", explica.

O morador afirma, contudo, que uma nova pintura ainda está em negociação. "Todo mundo ganha dinheiro aqui, eles vêm, fazem filmagem, foto. Se todo mundo ganha, por que eu não posso ganhar também? O certo seria eu ser ressarcido pelo menos no que gastei (cerca de R$ 200)", adianta.

Silva afirma que a escolha por uma tinta cinza-chumbo foi uma sugestão dos vendedores de uma de loja de materiais de construção, tanto que a ideia inicial era utilizar uma variação do marrom. "Falaram que essa cor era melhor para cobrir os grafites. Há 20 anos, a minha casa aqui era bege, estava com saudade disso", diz ele.

Além de Binho Ribeiro, o muro do morador também era ocupado por um trabalho do grafiteiro Boleta, do coletivo Local Studio Art. "A casa é do Seu João, ele pode fazer o que quiser. Sempre tivemos uma boa relação, tanto que ele me avisou da decisão", afirma o artista, que ressalta a importância de haver mais sinalização no Beco. "O meu desenho estava até descascado em uma parte na qual os visitantes costumavam colocar o pé para tirar fotos", argumenta ele, que, com a nova pintura, teme perder o espaço que ocupava há cerca de 20 anos.

Como ele explica, os grafiteiros geralmente pintam os muros apenas após negociar com o proprietário, autorização que costuma ser renovada nos anos subsequentes. A situação se tornou tão tradicional no espaço, que ele considera improvável que um local consiga permanecer cinza por lá - o que se confirmou com a manifestação de pichadores contra a pintura.

"Aqui é um lugar de muros pintados, então, para muita gente, um muro liso é uma afronta. Se ficar assim, as pessoas vão continuar escrevendo, o que vai se acumular até o ponto de se tornar atrativo e todo mundo de novo começar a tirar foto por lá", opina.

Nem todos os grafites da casa foram, contudo, removidos pelo idoso, que manteve a pintura feita no portão da casa pelo grafiteiro Jerry Ribeiro, parceria que se mantém há 18 anos. "Entendo o protesto. E se existe um lugar certo para se manifestar é aqui", diz o artista. De acordo com ele, visitantes costumavam, por exemplo, ignorar as três placas instaladas por Silva para não estacionar em frente ao seu portão."Tem gente que acha que aqui é parque de diversões, nem sabe que tem moradores", relata.

Reclamações de moradores

Por volta das 7h30, o prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias, se reuniu com João Batista da Silva. "Vamos estudar as mudanças sugeridas por ele. Busquei mostrar que seria ruim ter um muro pintado de cinza em um ambiente tão cultural da cidade", comenta. Segundo Mathias, novos serviços de zeladoria devem ser iniciados no Beco na próxima semana.

Moradora do local há 20 anos, a aposentada Vera Lúcia Teixeiras de Souza, de 61 anos, afirma que a vizinhança não é contra os grafiteiros. "Durante o dia, aqui é uma beleza. Mas, de noite, acordo duas, três vezes, com gente em cima do meu muro, quase na minha janela. Até o Parque do Ibirapuera fecha de noite, por que não pode ser assim aqui também?", questiona.

Para João Batista da Silva, as luzes do Beco deveriam ser reduzidas após as 22h para repelir a permanência de visitantes, especialmente de músicos. "Para tirar foto, olhar as pinturas, não precisa tocar música", questiona ele, que sempre morou na região. "Há 20 anos. Aqui era uma tranquilidade. As casas tinham muro baixo e, mesmo assim, ninguém entrava", relembra ele.

Próximo dali, um mais de 20 turistas visitavam o espaço. "A gente tinha curiosidade. Uma amiga minha conhecia e indicou. Nunca vimos nada parecido, apenas grafites isolados em um local ou outro", relata a estudante de Direito Thais Souza de Oliveira, de 22 anos, que veio de Manaus passar quatro dias em São Paulo com o servidor público Lucas Galiza de Queirós, de 22 anos. "Esse lugar é tão lindo. Achei muito triste o que aconteceu hoje", comentou também a estudante Roanna Santos, de 24 anos, vinda do Recife.

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