Temer relata encontro com Odebrecht e diz que não tratou de valores

Valmar Hupsel e André Ítalo Rocha

São Paulo

O presidente Michel Temer disse ter achado "desagradável" e "constrangedor" ver seu nome citado por um ex-executivo da Odebrecht, cujo depoimento em colaboração premiada à Operação Lava Jato disse ter participado de uma reunião com o então vice-presidente na qual foi acertada doação via caixa 2 no valor de U$ 40 milhões ao PMDB. "É uma coisa desagradável para quem está na vida publica há tanto tempo, graças a Deus sem manchas. É muito desagradável ouvir aquele depoimento. É constrangedor", disse Temer em entrevista à TV Bandeirantes veiculada nesta noite. "Foi uma coisa que me caceteou muito."

Na entrevista, o presidente reafirmou ter participado da reunião, que teria ocorrido no escritório político de Temer, em São Paulo, em julho de 2010, e voltou a negar ter discutido valores. "Não sabia de valores. Não se falou de contratos, evidentemente, e de nenhum tema escuso. Não tratamos de valores, nada disso", disse.

Temer lembrou que à época as doações de empresas a partidos e candidatos eram permitidas pela constituição, e que era comum que doadores quisessem conhecer pessoalmente as lideranças dos partidos que recebiam doações.

Este é o contexto que teria acontecido o encontro com o ex-presidente da Odebrecht Engenharia Industrial Márcio Faria da Silva, delator que citou a reunião. Em seu depoimento à Procuradoria Geral da República, Faria disse ter ficado "constrangido" com a forma aberta como foram tratados os pagamentos de propinas.

Temer disse que a reunião foi marcada pelo então deputado Eduardo Cunha porque o empresário queria "apertar a mão" dele. "O deputado Eduardo Cunha me disse na época, 'olhe, há uma pessoa aí que quer colaborar, quer contribuir para o partido, mas ele quer pegar na sua mão. Quer cumprimentá-lo.' Aí ajustamos um dia que eu estava em São Paulo", disse.

Temer lembrou que foi presidente do PMDB por 15 anos e presidente da Câmara, e que em sua vida pública teve contato com diversos empresários. "Quando se chegava na época da eleição, não era incomum que aquele que ia colaborar com o partido, depositar oficialmente as importâncias, quisessem cumprimentar o presidente do partido foi o que aconteceu".

Questionado se, diante da abertura de inquéritos contra oito de seus ministros, mudaria a "linha de corte" que havia estabelecido, de só pedir exoneração após o oferecimento de denúncia, Temer disse que sim. Mas ponderou que, eventualmente, um ministro pode pedir exoneração "se sentir confortável".

Impeachment

Temer descreveu a relação com Cunha como "institucional". "Não era do tipo uma relação pessoal que se tem com alguém".

O presidente disse que se o PT votasse a favor de Cunha no processo do qual ele era alvo no Conselho de Ética "era muito provável" que o então presidente da Câmara não desse admissibilidade ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

"Se o PT tivesse votado nele naquela comissão de ética era muito provável que a senhora presidente continuasse. E quando conto isso é para contar, primeiro, que ele não fez o impedimento por minha causa. Segundo: jamais militei para derrubar a presidente, como muitas vezes se diz".

Temer disse ainda que, em função de seus baixos índices de popularidade, governa sustentado no apoio que tem no Congresso Nacional. "Eu governo ancorado e apoiado pelo Congresso. Eu não tenho um índice elevado. Um índice pequeno. O grande apoio que eu tenho é do Congresso Nacional", disse.

Renan

Na entrevista, o presidente foi instado a falar sobre o comportamento do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que de aliado se tornou um crítico do governo.

Em resposta ao senador alagoano, que havia comparado o governo à seleção de Dunga, Temer retrucou afirmando que ele lembrava mais Felipão na pior derrota da história da seleção brasileira. Renan sempre foi um pouco assim, de idas e vindas. Acho que ele quis ter o momento de Felipão. Isso lembra o 7 a 1 da Alemanha", disse.

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