Advogado de Lula diz que convocar eleição pode ser 'única forma' de sanar crise

Jamil Chade, correspondente

Genebra

Convocar eleições "talvez seja a única forma de resolver as alegações que existem contra o presidente (Michel Temer)". O comentário é de Geoffrey Robertson, advogado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no exterior e que, nesta quinta-feira, 18, anuncia que está apresentando novos documentos para reforçar sua queixa na ONU de que existe uma perseguição contra Lula no Brasil.

Sua afirmação vem um dia depois que foi revelado o suposto envolvimento do presidente Temer e conversas com executivos da JBS. Para o jurista, "as ruas no Brasil estão pedindo eleições".

O advogado levantou a tese da eleição ao atualizar a imprensa internacional, em Genebra, sobre a queixa que ele apresentou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU em julho de 2016 sobre a parcialidade da investigação sobre Lula. Para ele, o ex-presidente "deve ser condenado" diante do que ele chama de um "comportamento parcial" do juiz federal Sérgio Moro.

"Lula não quer imunidade nem impunidade", garantiu. Ao falar com a imprensa estrangeira nesta quinta-feira, os advogados apontam que a ONU "aceitou" a petição do ex-presidente e que agora a equipe legal vai entregar respostas finais às perguntas realizadas pelos peritos, assim como evidências de "novos abusos cometidos" contra Lula pelo sistema judiciário brasileiro. A coletiva em Genebra foi anunciada como "a perseguição contra Lula".

Robertson, porém, criticou a Justiça brasileira, dizendo que o sistema é "louco" e que Lula, depois de deixar o governo "viveu de forma muito modesta, na periferia de São Paulo". "Ele é famoso por não ter refeições luxuosas ou viagens. Nenhuma conta no exterior menciona Lula. Até o apartamento que ele supostamente ganhou é bem modesto em praia de segunda categoria", disse, em referência ao tríplex no Guarujá.

Para a advogada de Lula Valeska Teixeira, o processo contra Lula "quer afetar o calendário eleitoral". Segundo ela, o depoimento do ex-presidente "não atende padrão internacional" e Moro "não nos deixou produzir evidências". "Não há presunção de inocência no Brasil. Mas presunção de culpa", insistiu Robertson

Atraso

Apesar da pressão, a agenda de casos que serão avaliados pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU em julho não inclui a queixa formada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a Judiciário brasileiro. Dados obtidos com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo e pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado, revelam que o órgão não cita o caso do ex-presidente em sua lista de temas a serem tratados em sua próxima sessão.

Em julho de 2016, os advogados acusavam o juiz Sérgio Moro na ONU de não estar sendo imparcial no julgamento do ex-presidente e apontam que os direitos de Lula estão sendo ameaçados no Brasil. Em outubro, a ONU aceitou avaliar o caso e deu até o dia 27 de janeiro deste ano para que o governo respondesse.

A entidade, porém, já deixou claro que não avalia ainda o conteúdo da queixa. Mas apenas se a ONU tem o direito ou não de examinar e fazer suas recomendações. De acordo com a entidade, o caso pode levar dois anos para ser examinado.

O Comitê da ONU, que se reúne em julho, não tratará do caso. "O caso não está na agenda da próxima sessão do Comitê, que ocorre em julho", declarou num e-mail o departamento de imprensa do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

Para que o tema não seja deixado para 2018, a última oportunidade que os advogados terão será a da inclusão da queixa na lista de casos a serem tratados na reunião do Comitê de outubro deste ano, a última sessão de 2017. A reportagem confirmou que a agenda do órgão para o segundo semestre não está definida.

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