Uma vida de tropeços nas pedras do crack

Fabio Leite

São Paulo

Durante sete anos, Marciano Gonçalves Alencar, de 32 anos, conviveu diariamente com o crack trabalhando em um pequeno hotel da famigerada Cracolândia, no centro de São Paulo. Sobreviveu incólume. Até que três meses atrás, flertou com uma usuária de droga que havia alugado um quarto para queimar a pedra. Acabou seduzido pela moça e pela substância que a acompanhava. Desta última, não conseguiu se livrar.

A dependência lhe roubou do emprego e da mulher, com quem tem três filhos. Ontem, três horas após fumar sua última pedra de crack na Praça Princesa Isabel, no centro, Alencar foi convencido por assistentes sociais da Prefeitura a trocar o "fluxo" da nova Cracolândia pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS/AD), recém-inaugurado a poucos metros dali, no antigo quadrilátero do crack, próximo ao hotel em que trabalhava.

"Já tomei a decisão, quero ser internado. Preciso me livrar disso logo, não quero que o crack entre no meu sangue porque depois não sai mais", disse Alencar, que perdeu 15 quilos desde que se afundou na droga e passou a viver na rua após ter sido expulso de casa pela ex-mulher, no Largo do Paissandu. "Vendi um celular novo por R$ 200 e torrei tudo em crack em uma hora."

Consciente, ele já percebeu que o tratamento não será fácil. De cara, teve de esperar cinco horas e meia sentado em uma cadeira de plástico até ser encaminhado por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), do Estado. Neste período, foi avaliado por psiquiatra de plantão do projeto Redenção, lançado pela gestão do prefeito João Doria (PSDB) para tratar usuários de drogas.

Angústia

Ao lado de Alencar, na tenda do Capas na Rua Helvétia, região da Luz, estava Amador Joaquim de Jesus, um senhor de 61 anos que buscava uma segunda oportunidade de se livrar das drogas após inúmeras recaídas. "Fui mais idiota do que os outros, comecei a usar droga com 30 anos, quando as pessoas costumam parar", contou Jesus enquanto ainda aguardava atendimento duas horas depois de ter feito cadastro.

Foi apresentado ao crack por um ex-amigo em 2000, quando era porteiro de um prédio na Vila Industrial, zona leste da capital. Em 2001, com a ajuda da família, tentou a primeira fuga da droga. Ficou seis meses internado em uma clínica de recuperação particular em Jundiaí, no interior paulista.

Nesses mais de 15 anos, conta Jesus, ficou "muito tempo limpo", mas teve alguns encontros escondidos com o crack. Após um deles, contudo, acabou se separando da mulher, com quem vivia há 13 anos, e se afastando dos dois filhos. Tentou "asilo" na casa da mãe em Sorocaba, no interior do Estado, mas acabou voltando a São Paulo após brigar com parentes. No retorno, encontrou guarida na casa de um amigo e em abrigo da Prefeitura, onde voltou a conviver com dependentes e, consequentemente, com a droga.

Nos últimos quatro meses, a Cracolândia passou a ser o endereço preferido de Jesus. "Chegava aqui por volta do meio-dia e só ia embora às 9 horas da noite, ou quando o dinheiro acabava. Essa é uma droga maldita, passei momentos terríveis, não quero mais isso para a minha vida", disse.

Para ele, a internação voluntária, além de ajudá-lo a se livrar do crack, é uma oportunidade de recuperar a credibilidade perante à família. Ontem, após quatro horas de espera pelo atendimento, ele pediu o telefone da reportagem emprestado para comunicar os parentes sobre a decisão: "Alô, é o Amador. Tudo bem? Tô aqui na Cracolândia... Calma, vim procurar ajuda e estou esperando uma vaga para ser internado", disse para a irmã, em Sorocaba.

Até as 18 horas, porém, Jesus continuava no Caps aguardando seu destino. A reportagem não conseguiu mais contatá-lo. Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde informou que vai apurar o motivo da demora. Segundo a pasta, 103 das 129 internações feitas pela Prefeitura desde o dia 21 de maio, quando houve a operação policial na Cracolândia, passaram pela unidade. "Quem aceita encaminhamento passa por avaliação social, médica e enfermagem para definir o tratamento".

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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