Eleição direta é 'solução de araque', diz Mangabeira

Pedro Venceslau

O advogado Mangabeira Unger, professor de Direito na Universidade Harvard e ex-ministro de Assuntos Estratégicos na segunda gestão Luiz Inácio Lula da Silva, decidiu tirar uma licença no segundo semestre para viajar ao Brasil e articular a candidatura de Ciro Gomes (PDT) à Presidência no ano que vem.

Principal ideólogo do projeto nacional do ex-governador cearense, Unger disse, em entrevista, que a ideia de antecipar a eleição presidencial direta em caso de impedimento de Michel Temer é uma "solução de araque".

Como o sr. vê a situação do governo Michel Temer?

São pessoas tão pequenas e com horizontes tão estreitos que não vale a pena pensar muito neles. Havia na época de Lula a estratégia do nacional consumismo, que combinava o hábito de buscar soluções fáceis com a massificação do consumo. Em vez de construir um novo produtivismo, o grupo que chegou ao poder (com Temer) voltou à agenda perdida da década de 1980, que é a doutrina da confiança financeira. A alternativa a esse rentismo financeiro e ao colonialismo mental não é o esquerdismo tradicional, mas uma alternativa produtivista para o País.

Qual sua posição sobre a proposta de realizar eleições diretas para presidente da República caso ocorra o impedimento ou renúncia de Michel Temer?

Minha posição pessoal não é a mesma do meu partido (PDT). Entendo que, dentro da atual circunstância que estamos vivendo, o mais sábio é seguir o procedimento constitucional. Ou seja: havendo denúncia, condenação ou impedimento do atual presidente que se faça eleição indireta pelo Congresso Nacional. O mais importante agora é preparar a etapa seguinte. (Eleição direta) É uma solução de araque. Há um hábito no Brasil de não acreditar nos procedimentos e não ter paciência para aguardar um ano.

Caso ocorra uma eleição indireta, qual seria o perfil ideal para o candidato?

Alguns nomes falados estão comprometidos com a agenda sectária, outros talvez não. Por isso a candidatura alternativa não deve ser estreita, sectária e de esquerda, mas produtivista e nacional.

O que esperar de uma eleição indireta do Congresso?

Rodrigo Maia (presidente da Câmara, do DEM-RJ) e o Tasso Jereissati (senador do PSDB-CE), sendo o segundo com mais legitimidade moral que o primeiro, continuariam abraçados a essa agenda do Temer. Na minha opinião, o Nelson Jobim não. Ele abandonaria essa agenda por inteligência política, além de convicção.

Partidos de esquerda estão cometendo um erro ao apostar na bandeira das diretas já?

Há convicção, mas também uma concepção tática. Os partidos de esquerda têm confiança que ganhariam uma eleição aberta. Na minha opinião, porém, devemos resistir ao "curto prazismo" e ter paciência. O mais importante é o conteúdo. Temos um problema básico no Brasil. Se juntarmos todos os discursos progressistas de esquerda e centro-esquerda, eles chegam ao poder amanhã e não sabem o que fazer.

O sr. é um dos principais articuladores da pré-campanha de Ciro Gomes à Presidência em 2018. Ele tenta se viabilizar como alternativa no campo da esquerda, que hoje é dominado pelo ex-presidente Lula. A unidade da esquerda em torno de um nome será possível?

Espero que sim, mas a construção dessa convergência passará por etapas. Antes de construirmos a dimensão política, é preciso haver clareza programática. No último período histórico no Brasil tivemos uma estratégia de desenvolvimento com duas bases. Uma foi a massificação do consumo e do crédito, a outra foi a produção e exportação de commodities. A agricultura, pecuária e mineração pagaram a conta do consumo. Esse projeto funcionou enquanto o preço dessas commodities estavam lá no alto, mas ruiu quando acabou o boom (das commodities). Esse projeto sempre foi frágil e insuficiente. Em vez de apostar na inteligência e na capacitação, optou-se pela riqueza fácil da natureza. Agora precisamos achar outro rumo para o País, que foque a produção e oferta mais que demanda e consumo.

O sr. apoia as reformas trabalhista e da Previdência?

Os que estão chamando agora de reformas é aquilo que na década de 1980 e 1990 chamavam de "Consenso de Washington". É uma agenda sectária, que atende aos preconceitos e interesses do rentismo financeiro. Nem sequer é essa a agenda do grande empresariado produtivo. Precisamos de um produtivismo inclusivo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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