Temer cita ex-procurador que foi trabalhar em empresa que fez delação

Carla Araújo e Tânia Monteiro

Brasília

Em uma tentativa de mostrar que está sendo atingido por uma denúncia feita por "ilação", o presidente Michel Temer deu o que chamou de exemplo e citou um ex-procurador que passou a ganhar dinheiro com delações premiadas. Temer, inclusive, resolveu citar o nome do procurador do caso, mas negou que também estivesse fazendo uma ilação.

Segundo ele, o seu exemplo de ilação permitiria construir a seguinte hipótese: "um assessor muito próximo ao procurador-geral da República, senhor Marcelo Miller, homem de sua mais estrita confiança, um dia deixa o emprego do sonho de milhares de jovens brasileiros", afirmou. "Abandona o Ministério Público para trabalhar em empresa que faz delação premiada com o procurador-geral. Ganhou milhões em poucos meses, o que levaria décadas para poupar", prosseguiu, ressaltando que não houve uma "quarentena".

Segundo Temer, Miller "garantiu ao seu novo patrão um acordo benevolente, uma delação que o tira das garras da Justiça, que gera uma impunidade nunca antes vista".

"E tudo ratificado, tudo assegurado pelo procurador-geral. Pelas novas leis penais da ilação, ora criada na denúncia, poderíamos concluir que, talvez, os milhões não fossem unicamente para o assessor de confiança que deixou a Procuradoria da República", declarou o presidente.

O presidente destacou ainda que basta olhar os últimos anos e os últimos acordos de delação para saber que "ninguém saiu com tanta impunidade". "Mas eu tenho responsabilidade, não farei ilações. Tenho a mais absoluta certeza que não posso denunciar sem provas. Não posso ser irresponsável", completou.

Temer, que não citou Janot diretamente no seu pronunciamento de cerca de 20 minutos, disse que não queria repetir o comportamento que estava criticando. "Não denunciarei sem provas. Não criarei falsos fatos para atingir objetivos subalternos. Por tradição e formação acredito na Justiça. Não serei irresponsável", reforçou.

Temer que chegou acompanhado de cerca de 50 parlamentares e ministros, disse que se estivesse na Câmara poderia fazer uma sessão, pois já havia quórum, e afirmou estar "agradavelmente surpreso com o apoio espontâneo". Temer disse ainda que, por ser da área jurídica, não se impressionava com os fundamentos "ou a falta deles" na denúncia e que, sob o foco jurídico, "a minha preocupação é mínima".

"Aguardarei a decisão do Judiciário", disse. "Mas se fosse só aspecto jurídico não estava fazendo essa manifestação. O faço em função do ataque indigno a minha pessoa", afirmou.

Temer afirmou que a "denuncia por ilação" abriu um precedente perigosíssimo. O presidente disse ainda que optou por falar o nome do procurador Miller, pois seu nome "foi usado deslavadamente na denúncia". "Havia um desejo de ressaltar quase em letras garrafais o meu nome", disse.

Ao afirmar que estão tentando imputar atos criminosos contra ele e que "não conseguirão", Temer disse ainda que o empresário Joesley Batista foi trazido de volta ao Brasil quando começaram a perceber que as provas estavam inconsistentes. "Interessante, ele veio de boné para se disfarçar", afirmou. "Eles foram preparados, treinados, para conversas induzidas", completou.

Temer afirmou que a gravação é uma prova inválida e que já foi questionada por diversos jornais e pelo perito que a defesa contratou. Ele destacou ainda que até a perícia oficial da Policia Federal, que não apontou edições, aponta "120 interrupções".

Sem citar o nome do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Temer negou a acusação de que teria dado aval para que Joesley comprasse o silêncio do ex-parlamentar. "Querem imputar a ideia de que mandei pagar isso, aquilo", destacou, ressaltando que o próprio deputado negou a versão de Joesley.

No fim de sua fala, Temer disse não saber como Deus o colocou como presidente, "com uma tarefa difícil, mas tenho honra de ser presidente". "Não fugirei das batalhas, nem da guerra que temos pela frente."

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