Contra xenofobia, adolescente ensina espanhol a colegas

Isabela Palhares

São Paulo

Aos 12 anos, Thaís López, filha de bolivianos, dá aulas de espanhol para 30 alunos na escola municipal Infante Dom Henrique, no Canindé, região central de São Paulo. A menina teve a ideia de ensinar o idioma que aprendeu em casa para se aproximar dos colegas e tentar acabar com os "grupinhos" que se formam de acordo com a descendência de cada um.

"Desde que entrei na escola (no 1.º ano do ensino fundamental), me sentia excluída e só tinha amigas que nasceram na Bolívia ou são filhas de bolivianos. Os outros alunos nos deixavam isolados e nos chamavam de ‘bolivas’ de uma forma muito ruim", diz Thaís. A escola tem um dos maiores porcentuais de alunos imigrantes da rede municipal - cerca de 20% dos estudantes são imigrantes ou filhos de pais que acabaram de chegar ao País. Em toda a rede, eles são 0,4% do total de quase 997 mil.

A proposta de Thaís foi bem recebida pelos colegas e o curso já tem quase 70 outros alunos na lista de espera. Mas o interesse pela língua e a vontade dos brasileiros de se aproximar dos imigrantes só aconteceu depois que a escola decidiu fazer um trabalho com todos os estudantes para reduzir o preconceito.

"Apesar de ficar numa região com uma comunidade boliviana muito forte, a escola não tinha um projeto contra a discriminação. Os alunos estrangeiros eram muito estigmatizados, sofriam ameaças, eram xingados, chegavam até a pagar ‘pedágio’ ou coagidos a fazer coisas erradas para não apanharem", conta Cláudio da Silva Neto, diretor da escola. Ele chegou à direção em 2011 e montou com alunos, professores e pais um novo projeto pedagógico para a unidade, que tinha muitos problemas com violência.

Uma das mudanças promovidas na escola foi a de valorizar a cultura dos estrangeiros e conscientizar professores e alunos sobre os motivos da migração e as condições que eles encontravam ao chegar no Brasil. "Das provocações que faziam sobre o trabalho escravo dos bolivianos e de que eles vinham para roubar emprego, os brasileiros passaram a entender a realidade daquelas famílias e começaram a ter admiração pelos estrangeiros e por terem outra cultura", conta Silva Neto.

Thaís também sentiu a mudança no comportamento do colégio e percebeu que eles passaram a ter curiosidade quando viam os bolivianos conversando em espanhol. "Com esses meses de aula, já dá até pra gente ter algumas conversas curtas em espanhol", diz a menina que deseja ser advogada para ajudar outros imigrantes no País.

Formação. A escola do Canindé é uma das 43 da rede municipal em que professores passaram, em 2016, por uma formação pela ONG Repórter Brasil para combater o trabalho escravo. "Nossa ideia era trabalhar na prevenção e evitar que esse tipo de condição de trabalho acontecesse. O que encontramos foram casos de xenofobia em algumas escolas e a dificuldade dos professores em lidar com eles por falta de preparo", contou Natália Suzuki, coordenadora do projeto.

A escola, diz ela, é um dos pontos de maior conexão entre os imigrantes e a comunidade local. Por isso, um olhar cuidadoso para a criança pode indicar problemas da família. "O professor descobre que o aluno, que chegava sujo ou tinha dificuldade de aprendizado, não vinha de uma família relapsa, mas que vive em situação de pobreza ou de abuso." Com o trabalho de valorização do migrante, Silva Neto conta que já teve casos de pais que pediram para que o filho fosse reprovado e ficasse mais um ano na escola - que só tem turmas até 0 9.º ano. "Era uma família síria que tinha medo de a menina perder a confiança e o que aprendeu aqui por ter de ir para outro colégio." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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