Condenação de Lula e denúncia contra Temer ampliam dúvida eleitoral para 2018

Alberto Bombig, Thiago Faria, Bernardo Gonzaga e Mariana Machado, especial para a AE

Brasília

  • Foto: Instituto Lula

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a votação em plenário da denúncia da Procuradoria-Geral da República contra Michel Temer ampliaram as incertezas sobre o cenário eleitoral de 2018 e terão, na visão de parlamentares, dirigentes partidários e analistas consultados pela reportagem, efeitos diretos na definição das candidaturas.

A intenção de Lula de concorrer, mesmo após ter sido sentenciado, pode "judicializar" a disputa, pulverizar os cenários, fragmentar o campo da centro-esquerda e interferir indiretamente na escolha do candidato da atual aliança governista, formada majoritariamente por PMDB, PSDB e DEM.

Na outra ponta do espectro, essa mesma aliança atravessa seu pior momento, estressada pela possibilidade de Temer ser afastado do cargo e de os tucanos deixarem o governo.

Outros efeitos colaterais dessas crises deverão ser a multiplicação de candidaturas, o fortalecimento de nomes de fora da política e um possível arrefecimento do chamado "discurso ético" nas campanhas.

Doria se fortalece

Os analistas são mais cautelosos do que os políticos nesse último aspecto. Eles avaliam, por exemplo, que o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), até agora fora da Lava Jato, se fortalece com a condenação de Lula e sua candidatura.

"Favoreceu o Doria, que imediatamente botou uma bandeira do Brasil em apoio a Moro na Prefeitura. A candidatura Doria é quase uma imposição", diz Murillo de Aragão, advogado e cientista político da Arko Advice Pesquisas. 

Ausência de Lula favorece Alckmin

"A presença ou não do Lula tem efeito direto no PSDB. Sem ele, Doria se enfraquece na disputa para ser o candidato tucano", afirma Rafael Cortez, cientista político e analista político sênior da Tendências Consultoria Integrada.

Quando faz a ressalva de que "sem Lula" Doria se enfraquece e, consequentemente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), ganha força, Cortez leva em consideração a possibilidade de o ex-presidente petista ser impedido pela Justiça de concorrer no ano que vem, a chamada "judicialização" da eleição. "A condenação consolidou o efeito do Judiciário na competição eleitoral."

Se a condenação de Lula a 9 anos e meio de prisão, determinada pelo juiz federal da primeira instância Sérgio Moro, for confirmada na segunda instância, Lula poderá ser impedido, conforme a lei, de ser candidato. A análise do recurso da defesa só deverá ocorrer no ano que vem.

Lula forte ou isolado?

A avaliação predominante, incluindo a de políticos ligados a setores do campo de centro-direita, é de que o ex-presidente, mesmo condenado, não pode ser considerado carta fora do baralho. Eventual absolvição em segunda instância, avaliam, fortaleceria sua candidatura, pois daria respaldo ao discurso de que ele é vítima de perseguição política. Uma vez impedido de disputar a eleição, seria um forte cabo eleitoral.

"Do ponto de vista político, é melhor tratá-lo como candidato", diz Cortez.

"Porém, é preciso lembrar que Lula está se isolando dentro da esquerda e só venceu uma eleição presidencial (em 2002) quando se aliou ao centro", afirma José Augusto Guilhon-Albuquerque, professor titular de Ciência Política e Relações Internacionais da USP.

"Não há dúvidas de que a condenação mantém a rejeição a Lula em patamares elevados", afirma Cortez. "Cria um grande constrangimento ao país, porque a repercussão internacional foi grande", diz Aragão.

Para o líder do PSD na Câmara, deputado Marcos Montes (MG), se Lula for absolvido na segunda instância, ganhará até mais força, "mas não conseguirá vencer as eleições, porque o Brasil está vacinado".

PSDB: fica ou sai da aliança

Com Lula em campanha, a aliança governista em torno de Temer --PMDB, PSDB e DEM-- terá de trabalhar para evitar a fragmentação, dizem os analistas. Para eles, uma vez liberado pela Justiça para concorrer, Lula, atual líder nas pesquisas, tem grandes chances de chegar ao segundo turno, o que deixaria apenas uma vaga aberta para o campo da centro-direita.

Aragão e Cortez lembram que uma terceira força que se contraponha à polarização PSDB-PT deverá ter boas chances no ano que vem. "Nesse sentido, dividir a base de Temer com mais de uma candidatura, por exemplo, pode deixar o PSDB fora do segundo turno", afirma Cortez. Segundo ele, o mais prudente para os governistas seria buscar um nome que represente a atual coalizão.

O problema, nesse sentido, é que o PSDB ensaia deixar o governo e vê no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o sucessor legal de Temer no Planalto em caso de afastamento do presidente, um candidato em potencial para 2018.

Mais partidos devem lançar candidatos

Essa também é uma característica comum nos cenários traçados pelos políticos. Além do PP, DEM, PSDB e PPS, siglas que estiveram juntas em disputas eleitorais anteriores, hoje falam em lançar candidaturas, mesmo que avulsas.

O mesmo ocorre nos partidos da esquerda. Ao menos oito legendas consultadas trabalham com a possibilidade de lançar candidatos próprios. "As alterações no cenário se darão no campo dele [Lula]. PSDB, PDT e Rede não vão mudar sua posição pela presença ou ausência do Lula", diz o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ).

Para a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), porém, o ideal é uma união das legendas de esquerda em torno do nome de Lula. "Hoje o Lula não é candidato do PT, é de uma parcela expressiva da sociedade, que o tem defendido apesar de todos os problemas pelos quais estamos passando, como a perseguição política", afirmou a senadora.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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