Bares convivem com lembrança de chacina

Marco Antônio Carvalho e Felipe Resk

São Paulo

A reforma que Juvenal fez recentemente para expandir o bar não incluiu pintura no portão metálico à frente. Então, quem passa ali nas tardes de segunda-feira, dia em que o comércio não abre para almoço, pode ler a mensagem pintada de branco: "Osasco pede paz". A frase está ali desde 14 de agosto de 2015, dia seguinte à maior chacina registrada na história do Estado, e era parte de um protesto da comunidade - que se reuniu naquele que foi o ponto que mais acumulou mortes no episódio: oito.

Seu Juvenal prefere não falar sobre o assunto - seu irmão foi uma das vítimas no caso e na segunda-feira, 18, ele foi depor no Fórum de Osasco -, mas vizinhos confirmam que o bar agora fecha mais cedo; em vez de varar a noite, como era comum, agora as portas são abaixadas por volta da 22h.

Além disso, o estabelecimento passou a apostar mais em alimentação, além do tradicional foco na venda de bebidas, mas sem deixar de lado o jogo na mesa de sinuca, que continua ali. Localizado na Rua Antônio Benedito Ferreira, no bairro de Munhoz Júnior, o local tenta retomar a normalidade, realizando os tradicionais bingos e as festas ao som do forró nos fins de semana.

Eram 20h50 do dia 13 de agosto de 2015 quando ocupantes de dois carros e de uma moto desembarcaram e abriram fogo contra um grupo de pessoas, matando 8 e ferindo 2. Aquela seria a terceira de uma série de dez ocorrências que resultaria ainda naquela noite no assassinato de um total de 17 pessoas, com outros 7 sobreviventes.

O caso não sai da memória dos moradores da região. Na frente de um comércio na mesma rua estão sentados o padeiro Dermival Alves Silva, de 59 anos, e o aposentado Givaldo Santos Silva, de 57. Givaldo conta que passou a frequentar menos o bar alvo da chacina, local onde não passava nem sequer uma semana sem ir. Perdeu amigos naquele dia.

"Todos ali eram colegas e foi por acaso que não estava no dia", disse, acrescentando que preferiu outro bar da área e, de lá, escutou a série de disparos que acreditou ser rojões, até ver a correria na vizinhança.

Sem saída

A três quilômetros, a lembrança bate forte na proprietária de um bar na Rua Astor Palamin, no Jardim Helena Maria, onde morreram dois naquela noite. Ela prefere não se identificar e está sozinha atrás do balcão do espaço, com mesa de sinuca e diversos pôsteres do Palmeiras pela parede.

O marido também foi convocado a ir ao Fórum de Osasco participar do julgamento como testemunha do caso. "Só sabe a sensação daquilo quem passou. A gente só continua aqui, e vivendo da mesma maneira porque é o jeito, não tem o que fazer. Mas não é fácil."

Júri

Com relatos de sobreviventes, testemunhas e familiares, o segundo dia do júri da maior chacina de São Paulo, que terminou com 17 mortos em 2015, teve muito apelo emotivo e até choro de advogado de defesa. A testemunha que diz reconhecer o PM Fabrício Eleutério, um dos três réus em julgamento, prestou depoimento e voltou a apontá-lo como o autor do disparo que o atingiu. A defesa contesta o relato e disse se tratar de uma "testemunha profissional".

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