Oficinas em São Paulo revelam inventores

Priscila Mengue

São Paulo

Foi quase como montar um quebra-cabeças. Por 12 horas, Amélia de Souza Pereira, de 41 anos, imprimiu e encaixou as 64 peças que compõem o primeiro objeto que inventou em toda a sua vida: uma boleira.

Ex-diarista, Amélia perdeu parte do movimento da mão esquerda após sofrer um acidente de trânsito há mais de três anos. Desde então, tarefas simples, como preparar um bolo, ficaram mais difíceis. Para despejar a massa na forma, por exemplo, precisava segurar a vasilha com a mão direita e esperar até que todo o conteúdo caísse sozinho, apenas com o auxílio da gravidade. Agora, basta prender a vasilha na boleira e despejar a massa com a ajuda de uma colher.

Amélia também criou uma tábua de cozinha com peças que se ajustam e seguram o alimento enquanto é cortado. Antes, colocava um garfo na boca para prender o que queria cortar ou pedia ajuda a uma irmã que mora na vizinhança.

"Hoje, quando eu vejo um problema, já penso em uma solução, não só para mim, mas para outras pessoas", diz a ex-diarista que, além da boleira e da tábua, desenvolveu outros projetos, todos voltados para resolver dificuldades cotidianas de quem não tem plena mobilidade manual. "Aumentou a minha autoestima", diz.

O lado inventor de Amélia surgiu no início de 2016, quando começou a frequentar o Fab Lab CEU Três Pontes, no Jardim Romano, no extremo leste da capital. O laboratório digital pertence à rede municipal Fab Lab Livre, criada em 2015 pela Prefeitura de São Paulo e que tem outras 11 unidades espalhadas pela cidade.

Os espaços são alinhados com o movimento maker, que propõe o aprendizado na prática, utilizando equipamentos tecnológicos, como a impressora 3D e máquinas de corte a laser, além de instrumentos básicos de marcenaria. A ideia é que pessoas sem experiência sejam capazes de desenvolver projetos com a ajuda apenas de um instrutor ou depois de realizarem um curso rápido, com duração de quatro a 96 horas.

De acordo com um dos líderes da rede Fab Lab Livre, o arquiteto Ricardo Delgado, de 27 anos, o programa pretende que, com um pequeno apoio, as pessoas estejam aptas para criar com liberdade.

Sustentável

Foi no Fab Lab Heliópolis, na zona sul da capital, que o designer Marco Zarif, de 23 anos, conseguiu desenvolver dois projetos de pranchas de surfe que encontrara na internet para serem replicados e adaptados. Ambas têm como base o papelão. Em uma delas, o material substitui o poliuretano e suas variações na parte interna. A outra, que ainda está em desenvolvimento, é quase toda feita de papelão e ganha apenas uma laminação de fibra de vidro para resistir à água.

De acordo com Zarif, as pranchas são totalmente recicláveis e, quando danificadas, podem ser transformadas em outros produtos, como brinquedos.

Já o Fab Lab da Chácara do Jockey, na zona oeste da cidade, foi utilizado por jovens professores de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (USP) para o desenvolvimento de microscópios caseiros que agora usam no programa João de Barro Ensina, que oferece oficinas de para crianças e professores da educação básica.

O "cabeloscópio" e o "cuboscópio" produzido pelos docentes foram feitos utilizando apenas uma webcam e papel ou MDF. O alcance dos equipamentos é de 100 a 300 vezes o tamanho real.

Integrante do projeto, o professor de Ciências da rede municipal Rodrigo Tsuzuki, de 29 anos, afirma que as imagens captadas pelos microscópios podem ser projetadas para todos. "Na aula é ótimo, porque todo mundo interage junto. Se fica somente um aluno por vez, o resto da turma acaba perdendo interesse", diz. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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