Vice-governador sonha em assumir São Paulo com saída de Alckmin

Pedro Venceslau

São Paulo

  • Reprodução/UOL

    O vice-governador de São Paulo, Márcio França

    O vice-governador de São Paulo, Márcio França

Com 32 quilos a menos, após uma cirurgia bariátrica, o vice-governador de São Paulo, Márcio França, de 54 anos, comprou uma prancha de surf long board para voltar a praticar o esporte que abandonou há mais de 20 anos. Ao jornal 'O Estado de S. Paulo', ele, que também é o presidente do PSB paulista e membro da executiva nacional da sigla, falou sobre a maior onda que sonha em surfar na sua vida: assumir o comando do Palácio dos Bandeirantes a partir de abril, se o atual governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), sair para disputar o Palácio do Planalto.

O vice-governador fala abertamente que o cargo poderá abrir caminho para ele montar uma "coligação robusta" para tentar a reeleição. "Se eu assumir o governo serei candidato à reeleição. Sou conhecido em São Paulo por 6% da população. Nada me tornaria conhecido, a não ser assumir o governo. Terei uma coligação robusta. Estar sentado na cadeira de governador é um ótimo componente. Serei um player importante. Não sou uma extensão do PSDB", disse o pessebista ao Estado em seu gabinete no 1° andar do Palácio - o governador fica no segundo.

França lembra que foi um dos "fortes responsáveis" por Alckmin compor um governo pluripartidário. "Ele quase nunca tinha feito isso", afirmou. O governo tem hoje um secretariado com PPS, PV, PP, SD, PTB, PSB. "Foi essa engenharia que levou a vitória do [João] Doria [na eleição de 2016]."

Segundo auxiliares e amigos de Alckmin, o governador já trabalha com o cenário de se dividir entre dois palanques em São Paulo: um de França e outro tucano. Há mais de 20 anos no poder em São Paulo, o PSDB pela primeira vez deixará o comando do Estado com um político de outro partido que tentará a reeleição - quando o mesmo Alckmin deixou o governo para concorrer à Presidência, em 2006, Claudio Lembo (do então PFL, hoje DEM) não concorreu.

A avaliação no entorno do governador é consensual sobre a confiança absoluta que ele tem na lealdade de seu vice. Por isso, Alckmin avisou que não vai atuar em 2018 para reunir no palanque do PSDB os mesmos 13 partidos que fizeram de João Doria o detentor do maior tempo de TV na campanha de 2014.

Setores do partido lembram a traumática eleição pela prefeitura de São Paulo de 2008, quando Alckmin foi derrotado por Gilberto Kassab, que foi apoiado informalmente pelo então governador José Serra (PSDB).

"A convivência na eleição será pacífica. Márcio tem todo o direito de ser candidato à reeleição. Temos que aceitar isso. As alianças terão que seguir a lógica nacional para dar maior suporto ao Geraldo", disse o secretário estadual de Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, pré-candidato do PSDB à sucessão de Alckmin.

Outro pré-candidato tucano, o sociólogo Luiz Felipe D'Ávila também considera "legítima" a candidatura de França, mas questiona um eventual apoio de Alckmin. "O PSDB terá candidato próprio e ele terá o apoio do Geraldo, que não vai pedir votos para Márcio França."

O vice-governador, por sua vez, acredita que terá apoio de muitos tucanos na campanha e descarta implodir toda a estrutura montada por ele. Alguns cargos-chave, porém, serão trocados. Um deles é a Casa Civil, cujo titular, Samuel Moreira, tentará uma vaga na Câmara.

França afirmou que apoiará Alckmin mesmo se seu partido subir em outro palanque ou lançar um nome próprio à Presidência. "Vou lutar muito para que o PSB esteja com Alckmin. Vou estar na campanha dele."

"Sacrifício"

A negociação com tucanos, porém, passa por afinar o mapa de apoios com o PSB nos Estados. "Tenho relação com muita gente do PSDB. Muitos têm simpatia pela tese que a prioridade do partido deveria ser a retomada da Presidência da República. Não é tarefa simples. Toda prioridade exige algum sacrifício. Para atrair partidos, haverá de se fazer alguns sacrifícios que ficam compensados pela Presidência".

A palavra sacrifício também é usada por auxiliares de Alckmin para falar sobre o complexo desafio de evitar que a disputa pelo governo paulista entre PSB e PSDB contamine a formação do palanque nacional tucano. A avaliação no Bandeirantes é que, com a caneta na mão, França contará com o apoio "por inércia" da maior rede que um candidato ao governo pode ter: os prefeitos do interior.

Há convergência na análise do partido e de França: o nome mais força para disputar o governo paulista é do senador José Serra, que se colocou na disputa.

"Serra é um nome muito competitivo. Há 4 anos eu disse: se o PSDB tem um nome em São Paulo, é o Serra. Ele é o mais preparado", disse França. Ele considera remota a possibilidade ventilada no PSDB do prefeito João Doria ser o candidato tucano. "O eleitor paulistano acha que São Paulo é o centro do mundo. Doria teria muita dificuldade em fazer a renúncia. A exceção no caso do Doria, seria se ele fosse sacrificar a capital pelo Brasil", afirmou.

Sonho desde os 25 anos

Em 1988, Márcio França tinha acabado de se filiar ao PSB quando foi passear em Campos do Jordão com a mulher e seu filho Caio, que acabara de nascer. Ao visitar o Palácio de Governo, residência de férias dos governadores de São Paulo, local que virou ponto turístico, deixou anotado no caderno de visitas: "Só volto aqui quando for governador".

Na ocasião, ele tinha 25 anos. No ano seguinte, quando o Brasil viveu a primeira eleição presidencial após a redemocratização, ele foi eleito vereador em São Vicente, aos 26 anos. Natural de Santos, Márcio França começou sua carreira no movimento estudantil durante o curso de Direito, quando foi presidente do Diretório Acadêmico e da Junta Governativa do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Católica de Santos.

Apesar da origem de esquerda, França se aproximou do então governador Mário Covas, que também é da região, e, em 1997, com apoio dele, tornou-se prefeito de São Vicente. Em 2006, foi eleito pela primeira vez deputado federal e, logo em seguida, assumiu a liderança do PSB na Câmara dos Deputados. Esteve ao lado de Lula e Dilma Rousseff nas gestões petistas, mas sem deixar de apoiar os tucanos em São Paulo. "Os petistas acham que sou tucano, os tucanos, petista. Não sou nenhum nem outro", diz.

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