Cientista político quer ser 'o novo' do PSDB em SP

Renata Agostini

São Paulo

Luiz Felipe D’Ávila, um calouro da política, lançou-se há três meses numa aventura em que muitos de seus veteranos fracassaram: virar candidato do PSDB ao governo de São Paulo. D’Ávila, um cientista político, ainda trabalha na sua plataforma de campanha. Mas a retórica já parece pronta - e ácida. Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele afirma que o partido terá enorme desgaste caso apresente um candidato que "representa o velho" ou que usa a prefeitura "apenas como trampolim", alusão ao senador José Serra e ao prefeito de São Paulo, João Doria. Boa parte da cúpula do tucanato considera improvável que D’Ávila viabilize sua candidatura. Ele não liga. "Comecei esse negócio e vou até o fim. Não vou recuar", afirma o paulistano de 54 anos.

O objetivo de D’Ávila é disputar as prévias, algo que nunca ocorreu entre os tucanos para o pleito estadual. À sua frente a lista de candidatos não para de crescer. Além de Doria e Serra, há Floriano Pesaro, José Aníbal e Bruno Covas. Ele, porém, não titubeia. "Não quero ser senador, não quero ser deputado, não abriria mão de disputar as prévias do partido para aceitar um cargo na Câmara", diz.

D’Ávila deixou em outubro o Centro de Liderança Pública (CLP), entidade sem fins lucrativos que dirigia desde 2008, para se dedicar integralmente à sua pré-campanha. No escritório de uma residência no Jardim Europa, propriedade sua transformada recentemente em comitê de campanha, ele traça planos para angariar apoio dentro do partido.

Em fala acelerada, mas em tom insistentemente animado, ele cita tucanos que já procurou e as andanças pelo Estado, enquanto alfineta seus adversários diretos na disputa interna. "Sou o único que o plano A é ser governador. Os outros são assim: se eu não for candidato à Presidência, topo governador. São Paulo é um desafio muito grande para ser o plano B dessas pessoas", afirma.

Essas pessoas são João Doria José Serra. O primeiro travou uma disputa velada com o seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, pela vaga de candidato à Presidência. O segundo começou a ensaiar nas últimas semanas um movimento nos bastidores rumo à uma candidatura - seja ela qual for.

"Isso é uma coisa importante na política: precisa ter começo, meio e fim. De postura, de mandato", diz D’Ávila. "A melhor coisa que pode acontecer para o PSDB é cada um jogar bem na sua posição. E não que fiquem criando ruído com essas histórias", afirma.

Beija-mão

A candidatura de D’Ávila é vista com ceticismo por seus correligionários. Ele orbita o grupo político de Alckmin, de quem é amigo, mas ainda não tem uma rede de apoiadores dentro da legenda. Tenta replicar, no entanto, a experiência de Doria que, em sua estreia, derrotou nas prévias Andrea Matarazzo - o empresário, agora no PSD, era apoiado por figuras tradicionais do partido como José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Alberto Goldman e Aloysio Nunes.

Doria valeu-se de duas estratégias: girar intensamente os diretórios municipais e angariar o apoio de Alckmin. Ao ser o primeiro a registrar sua pré-candidatura, oficializada em setembro, D’Ávila tentou garantir o início da primeira parte do seu "plano Doria".

Com o passo burocrático, ganhou acesso à lista de filiados e diretórios do partido. De posse dela, começou um giro pelas prefeituras tucanas e, aos poucos, vai se apresentando às lideranças locais. "Estou correndo o Estado. São duas, três cidades por semana", afirma.

Em suas contas, já fez contato com mais de 50 prefeitos. Sua meta é conversar com todos os 169 do PSDB no Estado. Nas visitas, carrega um relatório sobre a cidade com informações como renda per capita, perfil das exportações e das importações. O "kit" traz sugestões de como crescer as receitas do município. "É bacana para disciplinar os pedidos e a ambição política dos prefeitos com o governo do Estado. As coisas precisam fazer sentido. Se duplicar uma estrada, o que acontece com a produção, vai aumentar em quanto?", diz.

Ele defende que o governo de São Paulo tenha um plano ambicioso que o permita catapultar as vendas de empresas e indústrias paulistas para o exterior, incentive o empreendedorismo e a educação de ponta.

Grupo

De família abastada e casado há 24 anos com a filha de Abilio Diniz, a empresária Ana Maria Diniz, com quem teve dois filhos, D’Ávila transita muito bem entre a elite paulistana. No partido, porém, ainda busca seu espaço.

Formado em ciências políticas em Paris, trabalhava como comentarista em jornais e na TV quando se filiou ao PSDB em 1993. Quem abonou sua ficha foi o então deputado federal Geraldo Alckmin, presidente estadual do partido. Não tinha relação próxima com o tucanato. Conhecia, sem grande intimidade, Fernando Henrique Cardoso, que era amigo de seu avô, o ex-deputado federal pelo PSD e pelo MDB João Pacheco e Chaves, já falecido.

Engajou-se na campanha de FHC à Presidência, participando do comitê de campanha, mas não aceitou o convite para integrar o terceiro escalão do governo. Em 2006, foi aos EUA fazer mestrado em Harvard. Lá encontrou Geraldo Alckmin, que, após perder a eleição para Lula naquele ano, decidira passar uns tempos estudando no exterior. "Ficamos mais próximos ali. Dava dicas das aulas que ele deveria fazer, ajudava em apresentações. Saíamos para comer pizza eu, ele, dona Lu (mulher de Alckmin) e Ana", conta D’Ávila.

Na volta ao Brasil, criou o CLP, para ajudar na formação de políticos e na melhoria da gestão pública. Deixou o PSDB em 2010 e só voltou a se filiar neste ano, quando decidiu que tentaria a candidatura.

Ideia

Apesar da proximidade, o apoio de Alckmin pode não ser tão simples de conseguir. O governador tem por hábito "jogar parado" e não se envolver em disputas. Recentemente, D’Ávila, já se apresentando como pré-candidato, reuniu 30 prefeitos tucanos de São Paulo no CLP. Alckmin compareceu e o gesto foi interpretado com um sinal de simpatia ao projeto.

A ideia de se lançar na empreitada eleitoral foi tomada após sugestão de Pedro Tobias, presidente do PSDB paulista. D’Ávila afirma que ficou surpreso com a sugestão, mas não era a primeira vez que a ouvia. Ex-assessor de Alckmin, o fazendeiro Frederico D’Ávila, seu irmão, insistia há tempos. Fred hoje é filiado ao PP, mas segue próximo ao governador. "Ele dizia que, em 2018, o Geraldo não ia ter nome para apoiar", diz o D’Ávila candidato, aos risos, enquanto enumera a lista de oponentes que agora tem à frente.

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