Número de denúncias por assédio sexual cresce na França

Andrei Netto, correspondente

A reação de atrizes de cinema nos Estados Unidos e na Europa contra o assédio fez crescer em 2017 o número de denúncias por violência sexual em 12% em relação ao ano anterior na França - com um pico de testemunhos após a revelação do caso Weinstein. Esse foi o principal efeito visível até aqui da mobilização social envolvendo a questão sexual no país após a onda de manifestações #meetoo e #balancetonporc nas redes sociais no final do ano.

Um relatório publicado pelo Ministério do Interior da França nesta semana indicou que as denúncias de estupro e de agressões sexuais - inclusive assédio - levadas ao conhecimento das polícias civil e militar no país cresceram 12% e 10%, respectivamente. O levantamento indica ainda que o crescimento foi mais pronunciado no final do ano, após a revelação do caso envolvendo o produtor de cinema americano Harvey Weinstein nos Estados Unidos. Após a eclosão do escândalo pela revista The New Yorker, campanhas foram lançadas nas redes sociais para estimular denúncias contra agressores sexuais. Na França, a reação gerou uma hashtag específica, #DenuncieSeuPorco, na tradução livre.

Nesse mesmo período, concentrado no quarto trimestre de 2017, as denúncias cresceram 31,5% às autoridades francesas. As queixas de casos de estupro, em particular, aumentaram 18% no período em relação ao ano anterior. "Vê-se mais revelações às forças de segurança de fatos eventualmente mais antigos, no contexto do movimento de tomada da palavra por mulheres após as revelações do caso Weinstein", diz o documento do Ministério do Interior.

Das mais de 40 mil denúncias recebidas, pelo menos um quarto diz respeito a relações intrafamiliares, ou seja, de violência envolvendo pessoas da mesma família. O relatório traz ainda a análise de Ernestine Ronai, codiretora da Comissão de Violências do Alto Conselho para a Igualdade entre Mulheres e Homens. "O movimento de liberação da palavra faz com que mulheres se sintam mais fortes", afirma a expert. "Elas acreditam que serão mais críveis, mais ouvidas e mais levadas em consideração."

O mesmo relatório das autoridades adverte, porém, que a violência sexual continua a ser amplamente subnotificada às autoridades, o que distorce os números registrados pelo Ministério do Interior. Em solo francês, a polêmica sobre o tema também foi catapultada pela discussão intelectual entre grupos feministas e um coletivo de 100 personalidades, entre as quais a atriz Catherine Deneuve, que assinaram um manifesto publicado pelo jornal Le Monde contra o suposto denuncismo, pelo que chamaram de "direito de importunar" e em defesa da liberdade sexual.

Após a controvérsia suscitada pelo artigo, Catherine Deneuve escreveu ao jornal Libération para lembrar que ela foi uma das personalidades que se lançaram à luta em favor da legalização do aborto na França e reafirmar suas ideias sobre a independência e a liberdade sexual, conquistas das últimas décadas. Mas, no mesmo texto, ela pediu desculpas às mulheres - "e apenas a elas" - que foram vítimas de violências sexuais e que eventualmente se sentiram chocadas pelo manifesto.

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