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Pela 1ª vez, cientistas monitoram macho de onça-pintada em SP

Herton Escobar

São Paulo

01/04/2018 09h03

Uma jovem onça-pintada caminha pelas entranhas do Parque Estadual Carlos Botelho, um maciço florestal de 375 quilômetros quadrados na região do Vale do Ribeira, no sudeste do Estado de São Paulo. Três meses atrás, ela rondava a área urbana de Juquiá, 35 km ao sul; e, antes disso, passeava por entre plantações de banana, 35 km ao leste. Os cientistas estão de olho nela.

Apelidada de Sossego, ela é apenas a segunda onça-pintada (e o primeiro macho) a ser monitorada por um colar de GPS na Mata Atlântica, onde a espécie está criticamente ameaçada de extinção.

Com cerca de 50 quilos e menos de dois anos de vida, ela foi capturada em setembro de 2017, na zona rural de Juquiá, por um equipe do Instituto Pró-Carnívoros (IPC). Desde então, os cientistas vêm monitorando seus passos via satélite, com iguais doses de deslumbre e preocupação.

O local de captura fica muito próximo ao Legado das Águas, uma grande reserva privada de Mata Atlântica, do grupo Votorantim, onde o IPC procura por onças-pintadas há mais de três anos, em parceria com a empresa. A reserva tem tudo o que uma onça-pintada poderia querer: 31 mil hectares de Mata Atlântica protegida e cheia de comida (catetos, queixadas e outros bichos que a pintada gosta de caçar); mas, por algum motivo, ainda não há registros da espécie por ali.

Intrigados, os pesquisadores seguiram a pista dada por um vizinho da reserva, que filmou (com uma câmera de segurança) uma onça-pintada zanzando pelo seu sítio. Foram para lá, armaram algumas armadilhas (laços que seguram a pata do animal sem machucá-lo) nos arredores e deu certo: poucos dias depois, capturaram não só uma, mas duas onças - uma parda e outra, pintada.

Sossego caiu na armadilha científica às 23 horas de 22 de setembro. Meio dia depois já estava solto de novo, em perfeito estado de saúde e com o colar de GPS funcionando. O nome é uma homenagem à tranquilidade que ele demonstrou durante o processo - contrariando o imaginário popular, de animais sempre ferozes e agressivos.

Na verdade, dizem os cientistas, os seres humanos são uma ameaça muito maior às onças do que o oposto. Ainda mais nessa região, por onde Sossego andou durante cinco meses antes de entrar no parque estadual. Os dados do colar mostram que ele desceu por fragmentos de mata até a borda urbana de Juquiá, passando muito próximo de sítios e estradas.

"O risco que ele correu foi altíssimo", diz a pesquisadora Sandra Cavalcanti, do IPC. Ela conta que ouvia tiros de caçadores todos os dias que entrava na mata para trabalhar. "Cheguei a ouvir sete tiros num único dia."

Gargalo

Essa pode ser uma das razões - talvez a mais importante - de não haver registros de onça-pintada no Legado das Águas. Os pesquisadores acreditam que essa zona de ocupação humana entre o parque e a reserva esteja atuando como um "gargalo", dificultando a circulação de onças entre as unidades de conservação do Vale do Ribeira e da Serra do Mar, onde a população desses felinos já é muito mais escassa.

Foi justamente por ali, não muito longe de onde os pesquisadores encontraram Sossego, que uma onça-pintada foi morta por caçadores e exibida como troféu nas redes sociais, em março de 2017. "Não tenho dúvida de que há mais onças sendo abatidas nessa região", diz Sandra.

Ela também está confiante de que há, sim, onças-pintadas no Legado das Águas, ainda que poucas. Os cientistas estimam que haja menos de 200 onças-pintadas hoje em toda a Mata Atlântica; por isso a conectividade entre as populações que restam é extremamente importante.

"Precisamos entender quais são e onde estão esses sumidouros, para mitigar seus efeitos e fazer com que os corredores de fauna funcionem", diz Frineia Rezende, gerente executiva da Reservas Votorantim. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.