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Não preciso enxergar porta para saber que casa caiu, diz ex-diretor do Inpe

Giovana Girardi

São Paulo

17/08/2019 09h23

O ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Ricardo Galvão, exonerado no início do mês após uma série de ataques do governo federal à instituição e aos dados de desmatamento produzidos por ela, rebateu nesta sexta-feira, 16, as supostas vantagens do novo sistema de monitoramento que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse pretender comprar.

A intenção foi anunciada por Salles no último sábado, em debate com Galvão na GloboNews. E reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta quinta-feira mostrou que o sistema já está sendo testado pelo Ibama.

"O ministro Ricardo Salles fala que agora vamos ter um sistema da empresa Planet para detectar desmatamento de 2 metros. Depois do debate eu disse: ministro, não se mede a distância Rio-São Paulo com uma régua de 10 centímetros. Uma árvore na Amazônia tem copa com diâmetro de 15, 20 metros. Para que eu preciso de uma resolução de dois metros para fazer um alerta de desmatamento? Eu só preciso de uma resolução de dois metros se eu quiser pagar muito mais para um sistema com maior resolução."

Galvão fez as declarações durante palestra nesta sexta-feira no auditório da reitoria da USP, para onde ele volta após sua exoneração. O pesquisador é livre-docente do Instituto de Física da universidade e estava cedido ao Inpe.

Após a palestra, em conversa com jornalistas, ele voltou a comentar o assunto e disse que os dados oferecidos pelo Planet são muito mais do que o necessário para fazer os alertas de desmatamento, exatamente a função que tem o Deter, o sistema de detecção em tempo real do Inpe.

"Imagina que tenho uma câmera para ver o câmpus da USP e quero detectar pessoas com blusa vermelha. O campo de imagem é muito amplo. Se eu começar a olhar isso com um foco muito pequeno, eu vou demorar anos para varrer todo o câmpus", explicou.

"Nosso sistema tem um campo mais aberto. Vejo imagens não muito focalizadas, mas detectamos onde tem desmatamento. Quando detectamos, podemos focalizar e ver melhor como é a área mesmo. O que a Planet está vendendo são imagens focalizadas. Mas imagine o tamanho da Amazônia. São 4 milhões de quilômetros quadrados na Amazônia Legal. Imagine olhar isso tudo com imagens de dois metros. Para quê?", questionou.

"Não preciso enxergar a porta para saber que uma casa está sendo derrubada", comparou. "O ministro está caindo no canto da sereia dos vendedores."

Galvão comentou ainda os supostos erros que foram apresentados por Salles para indicar problemas no Deter em reunião com técnicos do Inpe e do Ibama e também o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, em 31 de agosto dois dias antes de ele ser exonerado.

Ele disse que o Inpe solicitou duas vezes, por ofício, acesso aos dados para poder confrontá-los cientificamente com as informações do instituto, mas não foi atendido. "O ministro mostrou vários exemplos de dados errados. Ora, nós que somos físicos e trabalhamos em laboratório sabemos o que é dado e o que é erro. Se pega um monte de dados e existe uma margem de erro, eu posso pegar um dado errado e isso é normal", explicou.

"Depois do encontro do painel da GloboNews, eu pedi os dados, disse que se ele quisesse melhorar o sistema, poderíamos comparar cientificamente, usando o nosso modelo. Ele falou: não posso dar, sabe por quê? Esse trabalho foi feito gratuitamente para nós pela Planet. Quer dizer que ele aceita um dado de uma empresa, gratuito, sem pagar, e depois apresenta como dados científicos?", questionou Galvão.

Cerca de 200 pessoas lotaram o auditório e o aplaudiram calorosamente. Em vários momentos, ele se emocionou, mas manteve as falas fortes que o transformaram em uma espécie de herói da ciência brasileira depois que não se calou diante das críticas. O presidente Jair Bolsonaro disse mais de uma vez que os dados do Inpe são "mentirosos" e chegou a acusar Galvão de estar "a serviço de alguma ONG". O pesquisador reagiu e em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo disse que a atitude do presidente era "pusilânime e covarde".

"Sempre que a ciência for atacada temos de nos levantar. As autoridades sempre se incomodam quando escutam o que não querem", disse lembrando problemas que o Inpe teve com outros governos. "Mas será que esse seria um momento de volta às trevas?", questionou em referência à ditadura. Ele mesmo sentenciou: "Não. Porque a comunidade acadêmica e científica e o povo brasileiro não se calarão."

Galvão, porém, rejeitou a ideia de ser herói. "Não usem a palavra herói ou mito. Não existe salvador da pátria."

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