PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Medo do vírus é rotina nos serviços essenciais em SP

Gonçalo Junior

São Paulo

23/09/2020 13h20

Os profissionais que trabalham em atividades essenciais à população, como saúde, segurança, transporte e serviços de água, esgoto, lixo, energia elétrica, vivem um desafio duplo durante a pandemia. Além do risco de exposição ao novo coronavírus há complicações para exercer a profissão.

A exposição ao vírus se dá por meio do contato com casos confirmados, suspeitos ou assintomáticos e com a impossibilidade do isolamento. Muitos adoecem nessa batalha. Também há dificuldades para exercer a própria profissão. Das 5.384 denúncias relacionadas à covid-19 recebidas pelo Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP), 836 (15% do total) estão relacionadas aos profissionais essenciais. O restante das denúncias se divide em quase 300 diferentes atividades.

Presente na classificação da Occupational Safety and Health (OSHA) com o maior risco de exposição ao vírus, o setor de Saúde tem sido bastante afetado pela pandemia. Conforme dados de setembro da Secretaria Municipal da Saúde, 15,9 mil profissionais foram afastados num universo de 92,2 mil trabalhadores. Hoje, 1,2 mil estão com covid-19. No período, foram registradas 49 mortes. Na esfera estadual, dados até 31 de agosto apontam que cerca de 30,2 mil chegaram a ser afastados temporariamente por suspeita ou confirmação de covid-19. Desses, 26,3 mil já tiveram alta e 3.9 permanecem afastados. Ao todo, 68 profissionais morreram. No Brasil, 226 profissionais de saúde morreram e outros 257 mil foram infectados, diz o Ministério da Saúde.

O infectologista Luiz Barra, de 60 anos, que atua no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, venceu a covid-19, que contraiu em maio. Por causa da experiência que vivia desde fevereiro, quando começou a tratar os primeiros casos, ele se despediu da família imaginando que não voltaria da internação. A angústia aumentou quando descobriu que a mulher, Heloise, também médica, e a filha, Isabela, de 17 anos, haviam sido contaminadas. Desespero. Após 15 dias de UTI num total de 25 de internação, Barra conseguiu superar a covid-19.

"Fiquei fora do trabalho por um mês e meio. Tive dificuldades físicas no recomeço, mas estou bem. Nasci duas vezes. A felicidade foi muito grande quando percebi que havia sobrevivido. A maior emoção foi saber que minha família estava bem. Esse apoio foi fundamental."

Os serviços essenciais vão além da saúde. A Medida Provisória 926/20, de março, definiu a obrigatoriedade do trabalho em 33 serviços considerados imprescindíveis. A lista inclui assistência à saúde, assistência social, segurança, transporte, telecomunicações, internet, serviços de água, esgoto, lixo, energia elétrica e gás, entre outros. Em vários deles, os índices de contaminação foram baixos.

Em São Paulo, o Serviço Funerário precisou afastar grande parte dos trabalhadores como medida preventiva. Dos 867 servidores, 60% dos funcionários da esfera municipal pertencem ao grupo de risco, acima dos 60 anos. Para compensar, a prefeitura contratou 220 coveiros em abril. Ao todo, 2,4% testaram positivo. Foi registrado cerca de 0,5% de letalidade.

Também foram poucos contaminados na limpeza urbana. São Paulo tem cerca de 16 mil funcionários no setor, segundo a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb). Deles, 2,2% foram infectados, com recuperação de 2,1% dos agentes. Foram registrados seis óbitos.

As entidades de classe da iniciativa privada têm dificuldades para dimensionar o impacto da covid entre os profissionais. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) não tem estatísticas precisas. "Tivemos um número considerável de afastamentos, mas não podemos precisar quantas pessoas", afirma Ronaldo dos Santos, presidente da entidade.

No setor de transporte, o Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas) registra 302 casos confirmados, 819 suspeitos e 74 mortes na pandemia.

"Perdemos 74 companheiros para a doença e esse número deve servir de parâmetro para evitarmos que os coletivos se tornem instrumentos de proliferação do coronavírus", afirma Valmir Santana da Paz, presidente em exercício da entidade. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Cotidiano