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Fundado por Getúlio Vargas, PTB abre portas a grupos declaradamente facistas

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, durante protesto pró-armas na Esplanada dos Ministérios - Pedro Ladeira/Folhapress
O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, durante protesto pró-armas na Esplanada dos Ministérios Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Caio Sartori

Rio de Janeiro

30/07/2021 08h00Atualizada em 30/07/2021 08h55

Depois do trabalhismo dos anos pré-1964 e do fisiologismo posterior à redemocratização, o integralismo —versão brasileira do fascismo— chegou ao PTB. Fundada em 1945 por Getúlio Vargas, a sigla foi a casa das duas primeiras gerações trabalhistas, inclusive do presidente João Goulart, mas está cada vez mais radicalizado à direita.

Seu presidente, o ex-deputado Roberto Jefferson —condenado e preso por corrupção no mensalão—, personifica hoje o bolsonarismo: adotou um discurso armamentista, religioso e anticomunista.

Um dos marcos da guinada à direita do partido é a recepção, em suas fileiras, a grupos declaradamente fascistas. No mês passado, integrantes da FIB (Frente Integralista Brasileira), entre eles o presidente Moisés José Lima, filiaram-se ao PTB em São Paulo.

O grupo afirmou em comunicado que o PTB se converteu numa casa para os integralistas que quiserem disputar eleições no ano que vem e em 2024. Fundado em 1932 pelo jornalista Plínio Salgado, o integralismo imitava o fascismo italiano, de Benito Mussolini.

"Por mais contraditório que pareça a alguns, o fato de (o PTB) ter certa ligação no passado com Getúlio Vargas, a realidade é que a única ligação é histórica: desde sua refundação nos anos 80 até recentemente, o partido seguiu certo pragmatismo que já era observado no PTB de décadas anteriores", disse em seu site a Frente Integralista. "Tendo no último ano uma revisão doutrinária intensa, assumiram-se como bandeiras estatutárias a defesa da vida, o patriotismo, a família tradicional e os valores cristãos."

Autor do livro "O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo", em parceria com Leandro Pereira Gonçalves, o historiador Odilon Caldeira Neto diz que os grupos neointegralistas sempre buscam aproximação com algum partido político estabelecido.

No Brasil essa prática começou, afirma, com o antigo Prona, de Enéas Carneiro, passou pelo PRTB de Levy Fidelix e agora dá sinais de que tentará o mesmo com o PTB.

"Parece que, nesse sentido, o Roberto Jefferson virou o novo Levy. Foi Levy, na eleição de 2010, quem ajudou a popularizar certas ideias radicais. Com a emergência das chamadas novas direitas, ele e o PRTB fizeram um grande esforço em prol da sua radicalização", afirmou Neto.

O historiador estima que a FIB não tenha mais que algumas centenas de militantes, o que também é uma característica de grupos neofascistas de outros países. Eles não tentam ser uma organização de massa —diferentemente do passado, quando protagonizavam desfiles militarizados, uniformizados de verde e com braçadeiras com o sigma.

Preferem se aproximar de grupos mais amplos, que tenham poder. Nos anos 50 e 60, chegaram a se reorganizar no PRP (Partido de Representação Popular), sem expressão.

Interlocutor da FIB com a institucionalidade, o advogado Paulo Fernando Melo da Costa, ex-secretário especial da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), atuou pela soltura dos militantes bolsonaristas Sara Giromini e Oswaldo Eustáquio, acusados de atentar contra a democracia. Foi Costa quem articulou as filiações de integralistas ao PTB.

Caldeira Neto considera que os valores morais defendidos pelos neointegralistas são os mesmos de segmentos maiores do conservadorismo brasileiro, o que os aproxima do bolsonarismo. Mas vão além da defesa um tanto quanto genérica da "família" e cultivam visões de Estado inspiradas no fascismo.

"Defendem um certo tipo de organização da sociedade: integral, antidemocrática, antiparlamentarista; a extinção dos partidos políticos, o controle da imprensa e assim por diante. Inspiram-se de forma muito afeiçoada no modelo de sociedade integral do tempo do fascismo."

Em nota, a FIB nega ser versão brasileira do fascismo, ao contrário do que dizem historiadores. "Diversas críticas ao fascismo e movimentos diversos foram feitas —durante e inclusive antes mesmo da AIB— por Plínio Salgado", diz a nota, assinada por Lucas Carvalho, secretário-geral da FIB. A Frente alega o PTB não passa a ser necessariamente a casa dos neointegralistas, que estão espalhados por outras legendas.

As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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