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30/12/2009 - 16h58

Ativista diz que morte de Jango tem ligações com assassinato de ex-presidente do Chile

ANSA
BRASÍLIA, 30 DEZ (ANSA) - A morte do ex-presidente João Goulart, vítima de um suposto envenenamento, "tem profunda relação" com o caso do ex-mandatário chileno Eduardo Frei Montalva, assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet, é o que afirma secretário do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH) do Brasil, Jair Krischke.

"Entendo que os casos de João Goulart e Eduardo Frei Montalva têm uma série de profundas relações e paralelos, que agora começam a aparecer", diz Krischke em entrevista à ANSA.

De acordo com o ativista, "todos aqueles líderes políticos que poderiam representar algum risco para os militares, porque eram capazes de encabeçar processos de transição à democracia com apoio de amplos setores, foram eliminados no Brasil, no Chile e no Uruguai, e isso cabe claramente para Goulart e Frei Montalva".

O brasileiro também recorda que "as mortes dos dois ex-mandatários ocorreram em dois países que participaram do Plano Condor [repressão contra opositores aos regimes militares, orquestrada por ditaduras do Cone Sul na década de 1970], uma rede terrorista que coordenou ações regionalmente".

Krischke investiga há 30 anos a trama de terrorismo que envolveu os regimes de facto da região. Ele também foi assessor do procurador Giancarlo Capaldo, que acusou na Itália dezenas de militares sul-americanos por envolvimento no desaparecimento de cidadãos italianos, vítimas do Plano Condor.

Segundo o ativista, as mortes dos dois governantes latino-americanos são ligadas por diversos "elos", entre os quais estaria o modo como ambos morreram.

"As revelações da Justiça chilena sobre a forma como foi assassinado o ex-presidente Frei Montalva, que naquele momento era um importante opositor à ditadura, fortaleceram enormemente nossas suspeitas sobre o envenenamento de Goulart, que também era um referente democrático quando sofreu uma estranha parada cardíaca", continua Krischke.

Após uma investigação de seis anos, o juiz chileno Alejandro Madrid concluiu que Frei Montalva -- pai do atual candidato às eleições presidenciais chilenas, Eduardo Frei [da coalizão governista] -- foi vítima de envenenamento, em 1982.

No Brasil, a hipótese de que Jango tenha sido envenenado ganhou força depois de um agente do serviço secreto uruguaio, Mario Neira Barreiro, preso no Rio Grande do Sul, confessar que adulterou os medicamentos do ex-presidente, deposto pelo golpe de 1964. O efeito das substâncias seria semelhante a um ataque cardíaco.

"Outra ligação, de ordem factual, é que o Brasil enviou, através de uma mala diplomática, compostos bacteriológicos para experimentos de guerra química que eram realizados no Chile", reforça o ativista.

Krischke esclarece, contudo, que não há provas documentais para afirmar que Frei Montalva foi intoxicado com substâncias enviadas do Brasil, mas a hipótese de uma cooperação "mais intensa" entre os dois países é "plausível".

Nesse ponto, ele acredita que as investigações relativas à morte do ex-presidente chileno poderiam aportar elementos às averiguações sobre o funcionamento do regime militar brasileiro que, ainda de acordo com o ativista, participou "muito ativamente" no cenário internacional.

Krischke argumenta que "a eliminação de provas para obstruir as investigações sobre as reais causas que mataram Goulart e Frei Montalva constitui outro elemento que demonstra uma macabra semelhança no modus operandi das repressões brasileira e chilena".

"O corpo de Goulart foi transladado da Argentina ao Brasil sem que nenhuma autoridade exigisse a realização da autópsia", explica o especialista. Já os exames de Frei Montalva foram mantidos em segredo e continuam sem ser revelados, segundo informação divulgada recentemente no Chile.

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