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26/02/2010 - 16h46

(Especial) Sucesso na Colômbia e no México, 'narcocultura' populariza cotidiano do crime

ANSA
Por THIAGO BORGES E VITOR LOUREIRO SION

SÃO PAULO, 26 FEV (ANSA) - O sucesso das novelas colombianas que retratam a vida dos traficantes de drogas e dos grupos musicais mexicanos que exaltam suas façanhas é um sintoma do enaltecimento, por parte de uma parcela das populações destes países, do estilo de vida dos criminosos, segundo especialistas ouvidos pela ANSA.

No entanto, a disseminação de tais fenômenos leva a questionamentos sobre o impacto que o consumo da chamada "narcocultura" pode exercer sobre uma sociedade.

Para o sociólogo José Manuel Valenzuela Arce, pesquisador do Colégio de La Frontera Norte, do México, a partir do contato contínuo com manifestações culturais que tenham temáticas relacionadas ao narcotráfico, como as novelas e os corridos (tradicional gênero musical mexicano), os jovens podem ver nas atividades ilegais uma alternativa rápida e viável para ganhar dinheiro.

"O narcotráfico pode se apresentar como uma solução para a ausência de projetos de vida da parcela mais jovem da sociedade, já que a educação está longe de significar a certeza de ascensão social", explica.

Opinião semelhante tem a jornalista colombiana Martha Ruiz, editora de Segurança da Revista Semana, que ainda detalha as possíveis razões que, a seu ver, causam o sucesso de novelas como "El Cartel", "Sin Tetas no hay Paraíso" e "Las Muñecas de la Mafia" -- algumas chegaram inclusive a ser exportadas para outros países, como a Espanha.

"De fato, a máfia pode ser reconhecida como ponte para o enriquecimento em sociedades excludentes, até porque essas produções estão em consonância com o que as pessoas vivem e querem ver", diz ela.

Ruiz chama a atenção, porém, para o fato de que esses produtos retratam o crime sob um aspecto romantizado. "As histórias não tratam de violência, apenas expõem a dimensão épica do narcotráfico, como a possibilidade de ascensão social", afirma.

Ao amenizar aspectos negativos do narcotráfico, essas manifestações culturais podem ser interpretadas de maneira perigosa por parte da população, que "não vê diferença entre ser policial ou bandido, sentimento que vai crescer devido ao abandono do Estado", opina Valenzuela Arce.

O professor de Ciência Política da USP Rafael Duarte Villa crê que a capacidade de atração da "narcocultura" para o crime está muito relacionada também a indicadores sociais deteriorados. "Existe mão-de-obra, o que certamente está relacionado ao desemprego e à pobreza", ressalta.

Na Colômbia, por exemplo, a desocupação atingiu, no ano passado, 12% da população apta a trabalhar, segundo dados do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (Dane).

Estado ausente

Há ainda um outro fator que pode explicar o sucesso dos produtos culturais inspirados no dia-a-dia dos traficantes: o vácuo deixado por um Estado que não atende às necessidades básicas da população.

Na visão de Villa, "o tráfico promove o Estado de bem-estar social fora da lei". Ele aponta que, nas regiões onde há déficit educacional, por exemplo, muitas vezes "os professores das escolas são pagos pelos traficantes".

Para o coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina, Thiago Rodrigues, "o que o povo desses dois países quer é segurança a qualquer custo, sem importar se é ou não provida pelo Estado".

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