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15/05/2010 - 15h53

(Entrevista) Mediação do Brasil com Irã não implica conflito com EUA, diz estrategista

ANSA
Por BEATRIZ FARRUGIA e CAROLINE MAZZONETTO

SÃO PAULO, 15 MAI (ANSA) - O Brasil não busca o enfrentamento com os Estados Unidos e nem pretende construir uma bomba atômica ao se oferecer para mediar a disputa mantida pela comunidade internacional contra o programa nuclear iraniano, afirma o especialista em estratégia coronel Geraldo Cavagnari.

"O Irã tem uma proposta nuclear, acredito eu, que é diferente da brasileira. A nossa preocupação é para outros fins", explica em entrevista à ANSA o militar, que é pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas (NEE/Unicamp).

Países como os Estados Unidos, além da Organização das Nações Unidas (ONU), suspeitam que as pesquisas desenvolvidas no país árabe tenham como objetivo a construção de uma bomba atômica. Teerã refuta a acusação, mas vários governos pressionam a ONU para que sejam aplicadas sanções em retaliação.

A fim de resolver o conflito, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) propôs que o Irã enviasse 70% de seu estoque de urânio para ser enriquecido em outro local. Recentemente, o Brasil se ofereceu para mediar a questão, sugerindo que o país de Mahmoud Ahmadinejad trocasse o combustível nuclear com a Turquia, recebendo o material de volta enriquecido a 20%.

Para Cavagnari, o envolvimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não implica um confronto direto com os Estados Unidos, que defendem a aplicação das sanções. Segundo ele, as relações entre Brasil e Irã "são mais efetivas que cordiais". "Estamos nos aproximando agora", ressalta.

O pesquisador enfatiza que o interesse do Brasil é ser um contraponto, já que nações como a França, e a União Europeia (UE) em geral, "estão do lado dos Estados Unidos".

"Não há interesse de uma aproximação política muito estreita com o Irã", aponta o coronel, dizendo que a nação do Oriente Médio "tem uma proposta nuclear diferente da brasileira", que é voltada "para fins de energia ou de propulsão".

A interferência de Lula na questão não representaria, portanto, uma mudança no direcionamento da política externa do país, que não tem um caráter "radicalmente" contrário aos norte-americanos. "É uma política que se faz no varejo contra os Estados Unidos, não no atacado. Não é de enfrentamento, mas de fustigação", assegura.

Cavagnari afirma ainda que o Brasil teria a possibilidade de enriquecer urânio iraniano a 20% para depois devolvê-lo ao país, como já se ofereceu para fazer, mas refuta qualquer interesse da nação sul-americana em direcionar seu programa nuclear para a construção de armas atômicas.

"A bomba nuclear nós descartamos há muito tempo. Alguns grupos ainda lutam para reverter essa posição, mas creio que não vão conseguir", descarta o pesquisador da Unicamp, acrescentando que uma mudança no posicionamento brasileiro "está muito longe de ocorrer".

Apesar disso, o especialista admite que a mediação de Lula pode prejudicar o modo como o programa nuclear nacional é visto internacionalmente -- já que, segundo ele, as pesquisas iranianas podem, sim, ter fins bélicos, conforme denunciam os Estados Unidos.

"O Irã procura mesmo fins militares, porque eles têm um objetivo concreto, que estimula", relata ele, dizendo que "não há dúvidas" sobre as motivações do governo de Ahmadinejad, que visa "a destruição do Estado de Israel". "Nenhum outro país tem condições", contrapõe.

Neste domingo, Lula encontrará seu homólogo iraniano durante uma visita a Teerã, próximo destino de um giro que já o levou à Rússia e ao Catar. A mediação brasileira no conflito relativo ao programa nuclear será o principal assunto da pauta de discussão dos dois mandatários.

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