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01/08/2010 - 15h26

Fundação de García Márquez: 'O rastro nos ossos' - parte 1

ANSA
Autora: Leila Guerriero Tradução: Vitor Loureiro Sion

****Publicação veiculada pela ANSA a partir de parceria firmada com a Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI, em espanhol), de Gabriel García Márquez

Não é grande. Quatro por quatro apenas, e uma janela pela qual entra uma luz grumosa, celeste. O teto é alto. As paredes brancas, sem muito esmero. O quarto -- apartamento antigo em pleno Once, um bairro popular e comercial da cidade de Buenos Aires -- é discreto: ninguém chega aqui por engano. O piso de madeira está coberto por jornais e, sobre os jornais, há um suéter listrado -- rasgado --, um sapato retorcido como uma língua preta -- rígida --, algumas meias. Tudo o mais são ossos. Tíbias e fêmures, vértebras e crânios, pélvis, mandíbulas, os dentes, costelas em pedaços. São quatro da tarde de uma quinta-feira de novembro. Patricia Bernardi está parada no vão da porta. Tem olhos grandes, o cabelo curto. Segura um fêmur murcho e o apoia sobre seu músculo.

- Os ossos de mulher são menores.

E é verdade: os ossos de mulher são menores.

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Entre 1976 e dezembro de 1983, a ditadura militar na Argentina sequestrou e executou milhares de pessoas que foram enterradas como Não Identificadas em cemitérios e túmulos clandestinos. Em maio de 1984, já na democracia, convocados pelas Avós da Praça de Maio (um grupo de mulheres que procura seus netos, filhos de seus filhos desaparecidos durante a ditadura), sete membros da Associação Americana pelo Avanço da Ciência chegaram ao país. Entre eles, um antropólogo forense -- um especialista na identificação de restos ósseos: alguém que pode ler ali os rastros da vida e da morte --chamado Clyde Snow. Nascido em 1928 no Texas, Snow tinha seu prestígio: havia identificado os restos de Josef Mengele no Brasil. Além disso, bebia como um russo, fumava charutos, usava um sombreiro e botas texanas e estava habituado a viver em um país onde os criminosos eram indivíduos que matavam os outros: não uma máquina estatal que tragava pessoas e cuspia seus ossos. Nessa viagem -- a primeira de muitas -- dava uma conferência sobre ciências forenses e desaparecidos na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, e a tradutora, assustada pela quantidade de termos técnicos, pediu demissão na metade. Então um homem loiro, carismático, disse "eu posso: eu sei inglês". E foi assim como Morris Tidball Binz, 26 anos, estudante de medicina e dono de um inglês perfeito, cruzou na vida de Clyde Snow.

Durante as semanas que seguiram, Clyde Snow participou de algumas exumações a pedido de juízes e familiares de desaparecidos, sempre na companhia de seu novo tradutor. No mês de junho, quando teve que desenterrar sete corpos de um cemitério de subúrbio, decidiu que ia precisar de ajuda e enviou uma carta ao Colégio de Graduados em Antropologia solicitando colaboração. Mas não teve resposta. E foi então quando Morris Tidball Binz disse: "Eu tenho uns amigos".Os amigos de Morris eram um só: se chamava Douglas Cairns, estudava antropologia na Universidade de Buenos Aires e espalhou a mensagem -- "Há um gringo que procura gente para desenterrar restos de desaparecidos" -- entre seus companheiros de curso.

- Eu estou acostumada a desenterrar guanacos, não pessoas -- disse Patricia Bernardi, 27 anos, estudante de antropologia, órfã de pais, empregada na empresa de transportes de seu tio.

- Eu não gosto de cemitérios -- pode ter dito Luis Fondebrider, estudante do primeiro ano de antropologia, empregado em uma empresa de dedetização de prédios.

- Eu nunca fiz uma exumação -- disse Mercedes Doretti, estudante avançada de antropologia, fotógrafa e empregada de uma biblioteca móvel.

Mas depois pensaram que não perdiam nada se fossem escutar, e assim foi como às sete da tarde de 14 de junho de 1984, Patricia Bernardi, Mercedes Doretti, Luis Fondebrider -- e Douglas Cairns -- se encontraram com Clyde Snow -- e Morris Tidball Binz -- em um hotel do centro de Buenos Aires chamado Hotel Continental.

- Clyde nos pareceu um tipo estranho, pensávamos "Como bebe este velho, como fuma" -- disse Patricia Bernardi--. Nos ofereceu um trago, e quando nos explicou o que queria fazer acreditei que perderíamos o apetite. Mas depois nos levou para comer, e nós éramos estudantes, nunca havíamos ido a um restaurante elegante. Comemos como bestas. Mas tínhamos medo. O país estava muito instável, e pensávamos "Se volta a acontecer algo aqui, este gringo vai para seu país, mas nós temos que ficar".

Nesta noite se despediram de Clyde Snow com a promessa de pensar e dar uma resposta. "Me senti comovido, mas não tinham experiência -- contava Clyde Snow anos depois ao jornal Página/12 --. Falei que o trabalho ia ser sujo, deprimente e perigoso. E que além disso não havia dinheiro. Me disseram que iam discutir e que no dia seguinte iam me dar uma resposta. Pensei que era uma maneira amável de me dizer "Tchau, gringo". Mas no dia seguinte estavam ali". No dia seguinte estavam ali.

- Decidimos que íamos experimentar com essa exumação, e que depois víamos se continuávamos com as outras -- disse Patricia Bernardi --. Nos encontramos cedo, na porta do hotel, e nos levaram ao cemitério nos carros da polícia, Foi estranho subirmos nessa coisa. E depois subiríamos nesses carros tantas vezes. Eu nunca havia estado em uma tumba, mas com Clyde o difícil pareceu ser um pouco mais fácil. Ele se atirava com a gente na fossa, se sujava com a gente, fumava, comia dentro da fossa. Foi um bom professor nos momentos difíceis, porque uma coisa é levantar ossos de guanaco ou de lobos marinhos e outra é o crânio de uma pessoa. Quando começaram a aparecer os restos, a roupa se enroscava no pincel e eu perguntava "Que faço com a roupa?". E Clyde me olhava e dizia "Continua, continua". Nesse dia retiramos os restos, fomos ao necrotério e percebemos que não eram os que procurávamos. Clyde começou a discutir algo sobre a trajetória de um projétil com o pessoal do necrotério. Nós não entendíamos nada. Estavam lá os familiares, e eu disse ao juiz "Diga que não são os restos, essa gente já passou por muito". Quando lhes disse, o pranto dos familiares foi algo que...Saímos dali às três da manhã. Foi a exumação mais longa da minha vida.

Mas ocorreram tantas. Entre 1984 e 1989 Clyde Snow passou mais de vinte meses na Argentina e em cada uma de suas viagens os estudantes o acompanharam nas exumações, mergulhando aos poucos nas águas dessa profissão que não tinha -- no país -- antecedentes nem prestígio.

- Ninguém entendia o que fazíamos. Coveiros especializados, médicos forenses? -- disse Mercedes Doretti de Nova York --. A academia nos olhava enviesado porque diziam que não era um trabalho científico. Com pouco mais de vinte anos, empregados mal pagos de empregos absurdos, estudantes de uma profissão que não os preparava para um futuro que, de todas as maneiras, não podiam suspeitar, passavam os fins de semana em cemitérios do subúrbio, cavando na boca ainda fresca das tumbas de jovens sob olhar de seus familiares.

- Tivemos relação com os familiares dos desaparecidos desde o começo -- disse Luis Fondebrider --. Tínhamos a idade que tinham seus filhos na época em que desapareceram e tinham um carinho muito especial por nós. E havia o fato de que nós tocávamos em seus mortos. Tocar nos mortos cria uma relação especial com as pessoas.

Como tinham medo, iam sempre juntos. E, como iam sempre juntos, começaram a chamá-los de "o cardume". Não falavam com ninguém sobre o que faziam e, para falar do que faziam, se reuniam na casa de Patricia, de Mercedes.

- Todos sonhavam com ossos, esqueletos -- diz Luis Fondebrider -- Nada muito elaborado. Mas contávamos essas coisas entre nós.

- Todos tínhamos pesadelos -- conta Mercedes Doretti --. Um dia acordei aos gritos, sonhando com uma bala que saia de uma pistola, e acordei quando a bala estava por me acertar na cabeça. A sensação que tive foi que estava morrendo e pensava "Como não me dei conta que isso viria, como não me dei conta de que estou morrendo inutilmente, como não me dei conta de que não tinha que meter aqui?".

Em 1985 viajaram à cidade de Mar del Plata, para desenterrar os restos de uma desaparecida, com a certeza que estavam do lado dos bons. As Mães da Praça de Maio, o grupo de mulheres que busca seus filhos desaparecidos, estavam os esperando.

- Queriam frear a exumação -- diz Mercedes Doretti --. Diziam que Snow era um agente da CIA e que o governo estava tratando de esconder as coisas entregando sacolas com ossos. Houve insultos, foi duro. Ver que elas, que eram nossas heroínas, estavam contra nós foi muito forte. Finalmente desenterramos, e depois fomos pra praia. Nos sentamos ali, olhando o mar, compungidos.

Nesse mesmo ano, Clyde Snow testemunhou no Julgamento às Juntas -- onde se julgava os militares que haviam estado no poder durante a ditadura --, e projetou um slide dessa exumação em Mar del Plata: uma mulher jovem chamada Liliana Pereyra, o crânio cheio de balas.

"O que estamos fazendo -- disse Snow ao Página/12 -- vai impedir que futuros revisionistas neguem o que realmente ocorreu. Cada vez que recuperamos um esqueleto de uma pessoa jovem com orifício de bala na nuca, fica mais difícil vir com argumentos".

O tempo passou, conseguiram financiamento, alguma bolsa, e quando ficou claro que talvez pudessem viver disso, alguns abandonaram seus empregos. Em 1987 se inscreveram como associação civil sem fins lucrativos sob o nome Equipe Argentina de Antropologia Forense, com o objetivo de praticar "a antropologia forense aplicada aos casos de violência de Estado, violação aos direitos humanos, delitos de lesa-humanidade". Depois se uniram ao grupo Darío Olmo, estudante de arqueologia, empregado municipal; Alejandro Incháurregui, estudante de antropologia e direito, ajudante dos procuradores Moreno Ocampo e Strassera durante o Julgamento às Juntas; Silvana Turner, estudante de antropologia social, e Anahí Ginarte, estudante de antropologia.

Em 1988, quando foram convocados como peritos para escavar o setor 134 do cemitério de Avellaneda, um subúrbio de Buenos Aires onde os militares haviam enterrado centenas, poucos deles tinham mais de 22.

A fossa de Avellaneda permaneceu aberta dois anos e tiraram dali trezentos e trinta e seis corpos, quase todos com ferimentos de balas no crânio, muitos ainda sem identificação.

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A Equipe Argentina de Antropologia Forense tem seus escritórios em dois apartamentos idênticos, primeiro e segundo andar de um edifício antigo de estilo francês no bairro do Once. Ao redor, vendedores ambulantes, carros, ônibus, os pedestres: a banda de som de uma cidade em um de seus pontos altos. O segundo andar não tem nome. O primeiro sim, e se chama Laboratório. Além disso, ambos têm a mesma quantidade de quartos, os mesmos banheiros, cozinha no fundo, e quase nenhuma evidência de vida privada. Os móveis são novos e velhos, pequenos e grandes, de madeiras nobres e de fornica. Há um quadro, um pôster do Museu Metropolitan, mas são coisas que estão há muito tempo ali: coisas que já ninguém vê. Há lousa, paineis de cortiça com cartões de delivery e postais de esqueleto dançando: as festas latino-americanas da morte. Em uma janela há dois cactos pequenos e, em todas as paredes, uma profusão de projetos e de mapas. Alguns, não todos, têm marcas. Algumas dessas marcas, não todas, mostram os centros clandestinos de detenção: lugares de onde vêm o objeto estudado aqui.

O escritório onde trabalha Luis Fondebrider está no segundo andar. Ele, Mercedes Doretti e Patricia Bernardi são os únicos que ficaram do grupo original: Douglas Cairns só ajudou, no começo, em um par de exumações; Morris Tidball Binz saiu em 1990 para trabalhar na Cruz Vermelha e mora em Genebra desde então. No fim dos anos noventa se juntaram outras pessoas -- Miguel Nievas, Sofía Egaña, Mercedes Salado -- e, durante muito tempo, não foram mais que doze. Mas no começo do novo século a possibilidade de aplicar a técnica de DNA aos ossos obrigou muitas incorporações, e agora são trinta e sete. Em todos esses anos, a equipe trabalhou em mais de trinta países, contratada pelo Tribunal Criminal Internacional para a antiga Iugoslávia; O Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas; as Comissões da Verdade de Filipinas, Peru, El Salvador e África do Sul; os Ministérios Públicos de Etiópia, México, Colômbia, África do Sul e Romênia; o Comitê Internacional da Cruz Vermelha; a comissão presidencial para a busca dos restos de Che Guevara e a Comissão Bicomunal para os desaparecidos do Chipre.

- Todos os salários que recebemos por essas missões internacionais vão para um fundo comum -- diz Luis Fondebrider --. Não cobramos dos familiares pelo que fazemos. Nos sustentamos com o financiamento de uns vinte doadores privados europeus e norte-americanos e de alguns governos europeus. Não temos apoio de doadores privados nem de associações civis argentinas. As associações civis apoiam eventos de Julio Boca, mas não projetos como este.

Ocultos, discretos, cada identificação de alguém -- em 1989 na de Marcelo Gelman, o filho de Juan Gelman, poeta argentino radicado no México; em 1997 na de Che Guevara, na Bolívia; em 2005 na de Azucena Villaflor, a fundadora da Mães da Praça de Maio, desaparecida em 1977 -- os empurra às primeiras páginas dos jornais.

- Mas para nós -- diz Luis Fondebrider -- todos são pessoas. O Che ou o Juan Pérez. Quando foi o filho de Gelman, fomos Morris, Alejandro e eu a Nova York, para receber um prêmio de uma fundação, e fomos ver Gelman que vivia lá para contar que havíamos identificado seu filho. Me pareceu uma figura muito intimidadora, sério, parco. Dormimos em sua casa. Ele ficou toda a noite acordado, lendo o trabalho, e no outro dia nos fez milhões de perguntas. Foi estranho. Nunca havia dormido na casa de uma pessoa para a qual tivesse ido dar uma notícia assim.

- Você poderia se imaginar sem fazer este trabalho?

- Sim. Não sei o que faria. Mas sim.

Todos dizem -- e dirão -- o mesmo. Como se caminhassem orgulhosos em direção a um único futuro possível: a extinção.

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No andar inferior há vários quartos com mesas largas e estreitas cobertas por papel verde. No lugar onde costuma trabalhar Sofía Egaña quando está em Buenos Aires -- 36 anos, chagada à equipe em 1999 quando lhe propuseram uma missão em Timor Ocidental e ela disse sim e saiu dois anos para uma ilha sem luz nem água onde o exército indonésio, em 1991, havia matado duzentos mil -- há um escritório, um computador.

Clique e uma foto se abre: um crânio. Outro clique: o crânio e seu orifício.

- Entrou direto: uma execução assim, tuc, de trás. Temos os dente? Como brilham os dentes?

Em dois dias, Sofía Egaña estará em Ciudad Juárez, onde a equipe trabalha na identificação de corpos de mulheres não identificadas ou de identificação perigosa e, até então, deve resolver algumas questões urgentes: tentar vender a casa onde vive, quem sabe pedir um empréstimo bancário ou se mudar. Em um painel de cortiça, às suas costas, há uma mariposa desenhada e uma frase que diz 'Sofia te adoro' com caligrafia da pequena sobrinha. Há, também, uma foto tirada durante sua estadia em Timor:

- Esses são meus caseiros. Eles me alugavam a casa onde vivíamos. Ás vezes me ligam, para saber como estou. Como eu não tenho telefone estável, têm que ligar para a casa de meus pais. Há mais de onze anos estou viajando. Não tenho guarda-roupa. Tenho duas malas. Mas quando se junta o osso com a história, tudo faz sentido. Diante dos familiares sou a médica, a doutora. Para chorar, vou atrás das árvores. Não pode chorar.

- E com o tempo você se acostuma?

- Não. Com o tempo é pior.

No final de um corredor há um quarto escuro, fresco, as paredes cobertas por estantes que vão até o teto e, nas estantes, caixas de papelão de tamanho discreto com a legenda Frutas e Verduras.

- Cada caixa é uma pessoa. Aí guardamos os ossos. Todas estão etiquetadas com o nome do cemitério, o número do lote.

Na frente, em dois ou três quartos luminosos, cinco mulheres jovens se inclinam sobre as mesas cobertas com papel. Sobre as mesas há -- claro -- esqueletos.

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O escritório de Silvana Turner, no andar superior, está lotado de caixas que dizem Kosovo, Togo, África do Sul, Timor, Paraguai: a rota dos maiores massacres do século passado. Silvana Turner tem cabelo curto, o rosto limpo. Chegou à equipe em 1989.

- Se o familiar não tem desejo de recuperar os restos, não intervimos. Nunca fazemos nada que um familiar não queira. Mas ainda quando é doloroso receber a notícia de uma identificação, também é reparador. Em outros âmbitos isso costuma se fazer como um trabalho mais técnico. É impensável que a pessoa que estuda os restos tenha feito a entrevista com o familiar, tenha ido a campo recuperar os restos, e se encarregue de fazer a devolução. Nós fazemos isso sempre.

Em todos esses anos conseguiram trezentas identificações com restituição de restos e -- cruzando dados, rastreando documentação -- puderam conhecer e notificar o destino de trezentas pessoas mais cujos restos nunca foram encontrados.

- Se eu tivesse que definir um sentimento a respeito do trabalho é frustração. Queria dar respostas mais rapidamente.

A metros daqui há outro quarto onde as caixas têm os nomes de cemitérios argentinos: La Plata, San Martín, Ezpeleta, Lomas de Zamora, Ezeiza. A tarefa foi ampla. A obra pode ser interminável.

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Chove, mas dentro é seco, indiferente. É terça-feira, mas é igual.

Em um dos escritórios do laboratório haverá, durante dias, um caixão pequeno. Chamam-no de urna. Em urnas como essa devolvem os ossos aos seus donos.

- Vê? -- disse uma mulher com rosto de camafeu, uma beleza oval --. Isto, a parte interna, se chama osso esponjoso. E osso cortical é a externa.

Sob seus dedos, o esqueleto parece uma estranha criatura do mar, ao ar suas zonas esponjosas.

- Isto é um pedacinho de crânio. No crânio, o osso esponjoso se chama díploe.

Quando terminar de reconstruir -- de numerar suas partes, suas lesões, de estender o que fica sobre a mesa -- o esqueleto voltará à sua caixa, e essa pequena paciência da mulher oval terminará, anos depois -- se há sorte -- com um nome, um ataúde do tamanho de um fêmur e uma família chorando pela segunda vez: talvez pela última.

No vidro de uma das janelas que dá para a rua há um papel colado: o quadradinho de uma fossa e o desenho de 16 esqueletos. Ao pé de cada um há anotações: cinco pedaços mais uma tampa da Ilha de Itaca, desdentado no maxilar superior, cinco projéteis. Nenhum tem nome, mas sim a idade -- 30 em média -- e sexo: quase todos homens. Da rua, qualquer um que olha para cima pode ver esse papel colado na janela. Mas o que se veria ali é uma folha em branco. E, de todas as formas, ninguém olha.

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Uma porta se abre como um suspiro, se fecha como uma pluma. Mercedes Salado deixa uma caixa leve -- em que está escrito Frutas e Verduras -- sobre um escritório. Depois deu bom dia e acende o primeiro da hora. É espanhola, bióloga, trabalhou na Guatemala desde 1995, faz parte da equipe desde 1997 e durante muito tempo seus pais, dois aposentados que vivem em Madri, acreditaram que o trabalho da filha não era um serviço honesto.

- Um dia me chamaram e perguntaram: "Ouça, Mercedes, o que você faz...é legal?". Claro, quando comecei com isto não se sabia muito bem que coisa era América Latina e se meter nas montanhas para tirar restos de guatemaltecos...Meus pais tinham medo de que os chamassem dizendo "Sua filha está presa porque roubou alguém". Agora em Madri os vizinhos me saúdam, com "uau, é legal". O que me surpreende da equipe é a coerência. Se mantém com projetos, mas também há um fundo comum. É um sistema comunista que funciona. Se faz porque se acredita no que se faz. Ninguém estaria vinte anos cobrando o que se cobra se não gosta disso. Mas este trabalho tem uma coisa que parece como muito romântica, muito banal. E que este não é um trabalho, é uma forma de vida. Está acima de sua família, de seu marido, está acima de sua perspectiva de ter filhos. Nos esquecemos de aniversários, de aniversários de casamentos, mas não nos esquecemos de nenhum encontro com familiar. E no fundo é tão pequeno. O que você faz? Encontra a identidade de uma pessoa. É a resposta que a família necessitava há tanto tempo...e pronto. E isso é tudo. Mas quando vê o rosto das pessoas, vale a pena. É uma dignificação do morto, mas também do vivo.

Depois, com um sorriso suave, disse que tem um trauma: que não pode colocar crânios dentro de sacolas de plástico e fechá-las. - Me dá angústia. É estúpido, mas sinto que se sufocam.

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É sexta-feira. Mas é igual. Mulheres jovens, vestidas com diversas formas da informalidade urbana -- piercings, calças largas, camisetas sobrepostas -- trabalham incessantemente sobre as mesas do laboratório. Semana a semana, como se uma maré caprichosa interminável as levassem até ali -- mais ou menos inteiros, mais ou menos lustrosos -- os esqueletos mudam.

- Estão mesclados. Já tenho cinco mandíbulas, cinco indivíduos pelo menos -- diz Gabriela, enquanto cola dois fragmentos de osso.

São horas disso: olhar e colar, e depois ainda rastrear as lesões compatíveis com golpes ou balas, e depois aplicar a burocracia: tomar nota de tudo em fichas infinitas. Mariana Selva -- os olhos claros, as unhas curtas, vermelhas -- prepara uns restos para levar a exames: um crânio, a mandíbula.

- As vezes você vê os olhos de um jovem de vinte anos com nove balas na cabeça e diz ai, deus, pobre homem, que ira. Mas não pode ficar chorando, nem pensando em como foram todas essas mortes, porque não poderia trabalhar. Anália González Simonett tem um aro no nariz, quase sempre de tiara. É, com Mariana, uma das últimas a chegar à equipe.

- Para mim o que continua me assustando é a roupa. Abrir uma fossa e ver que está com vestimenta. E as restituições dos restos aos familiares. Aqui uma vez houve uma restituição a uma mãe. Ela tinha dois filhos desaparecidos, e os dois foram identificados pela equipe. A levamos onde estavam os restos. Antes de colocá-los em uma urna os estendemos, em uma mesa como estas. "Zezinho", dizia, e tocava nos ossos. "Ai, Zezinho, ele gosta de...". A forma de tocar o osso era tão simpática. E de repente diz "Posso dar um beijo em seu rosto?".

Em 6 de janeiro de 1990 os restos de Marcelo Gelman foram velados em público. Mas antes sua mãe, Berta Schubaroff, quis se despedir sozinha. A portas fechadas, nos escritórios da equipe, treze anos depois de vê-lo pela última vez, beijou o fruto de seu ventre nos ossos. (continua)

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