Um roteiro italiano pelos cavaletes de cristal do Masp

Por Lucas Rizzi SÃO PAULO, 05 FEV (ANSA) - Mais de seis séculos separam os pintores italianos Maestro del Bigallo e Amedeo Modigliani, porém no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - o Masp -, dono do mais importante acervo do país, eles estão a apenas 62 passos um do outro. Na curta distância que leva do bizantino ao moderno, pairam trabalhos de Mantegna, Perugino, Rafael, Botticelli, Ticiano, Bellini e Tintoretto, dando à Itália um papel de destaque na exposição que trouxe de volta os cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi.   


Escondidas do público desde 1996, essas estruturas estrearam na abertura do atual prédio do Masp, em 1968, e provocaram um drástico rompimento na rigidez de museus divididos em salas e paredes brancas, proporcionando aos visitantes uma relação diferente - e mais próxima - com as obras de arte. Quem chega ao segundo andar do icônico prédio da Avenida Paulista vê de uma só vez mais de 100 peças penduradas nos cavaletes transparentes por ordem cronológica. Não há percursos pré-definidos. Cada um faz o seu caminho. Mas não importa qual, ele dificilmente passará ao largo da arte italiana.   


A começar pelos dois trabalhos que dão as boas vindas ao público: "Virgem em majestade com o Menino e dois anjos" e "Virgem com o menino Jesus", dos até hoje anônimos Maestro del Bigallo e Maestro di San Martino alla Palma. O primeiro foi um artista florentino da segunda metade do século 13 e é autor da obra de pintura mais antiga do acervo do Masp, um exemplar bizantino de 1275 que mostra Nossa Senhora e Cristo em expressões severas.   


Colocada ao seu lado, como uma irmã mais nova e luminosa, a "Virgem com o menino Jesus", já da escola de Giotto, apresenta sentimentos plenamente desenvolvidos nos rostos de mãe e filho.   


O italiano Luciano Migliaccio, curador-adjunto de arte europeia do museu, conta que a obra fora atribuída inicialmente ao também giottesco Bernardo Daddi, antes de ser creditada ao Maestro di San Martino alla Palma, cujo nome exato permanece um mistério até os dias de hoje.   


Em seguida, sem sequer invadir o emaranhado de cavaletes que sustenta a coleção do Masp, aparecem alguns dos grandes trabalhos italianos do museu, como o pequeno e escultural "São Jerônimo penitente no deserto", de Andrea Mantegna. A autoria do quadro foi discutida durante muitos anos, mas hoje a crítica é praticamente unânime em atribuí-la à fase inicial do renascentista mantovano.   


Com sua autenticidade reconhecida no mundo inteiro, o retábulo participou, em 2009, de uma exposição no Louvre, em Paris, de onde voltou restaurado. "É uma das obras-primas dessa sua atividade inicial, um São Jerônimo feito como um personagem ligado ao mesmo tempo ao mundo religioso e humanístico. Ele é apresentado como estudioso da Bíblia e como místico", diz Migliaccio.   


Outro quadro que teve a autoria questionada é a "Ressurreição de Cristo", de Rafael, o gênio contemporâneo de Leonardo da Vinci e Michelangelo. Quando Pietro Maria Bardi, criador do Masp, o incorporou ao acervo, em 1958, pouquíssimas pessoas acreditavam que fosse do pintor de Urbino. Mas o colecionador, apoiado nos historiadores da arte Roberto Longhi e Carlo Ludovico Ragghianti, apostou no seu faro, e o tempo lhe deu razão.   


Atualmente, a "Ressurreição de Cristo", um dos trabalhos mais emblemáticos do museu, é reconhecida como parte da fase formativa de Rafael, que testou nela uma série de inovações perspectivas, como a tampa que gira sobre o sarcófago e a narrativa desenvolvida nos planos da obra.   


"O quadro é muito interessante, mas ele apresenta certa descontinuidade na representação das figuras, só que algumas são absolutamente extraordinárias, como o próprio Cristo ressuscitado e esse soldado que se levanta", explica Migliaccio.   


Esse último, inclusive, veio diretamente de uma ideia de Rafael, como comprova um desenho encontrado por pesquisadores.   


A disposição cronológica da exposição "Acervo em transformação" permite uma comparação direta entre os estilos de Rafael e seu mestre, Pietro Perugino, presente com "São Sebastião na coluna", santo cultuado por ser considerado o protetor contra a peste. Ao contrário da de seu aprendiz, a obra de Perugino é mais "tranquila", segundo o curador-adjunto, e presa a esquemas geométricos regulares.   


Outro quadro que empresta prestígio ao acervo do Masp é o monumental "Retrato do cardeal Cristoforo Madruzzo", de Ticiano, símbolo do renascimento veneziano. É uma das obras mais famosas da coleção do museu, citada até por Giorgio Vasari, o biógrafo dos artistas da época. O retrato não é apenas uma representação fiel do religioso, mas também traduz o seu caráter moral, com elementos que o aproximam do mundo político.   


Conterrâneo de Ticiano, Jacopo Tintoretto, ao contrário do predecessor, buscava fazer quadros mais comoventes do que agradáveis, como é possível ver no seu "Ecce Homo", que mostra Pôncio Pilatos apresentando Cristo à multidão. "É um quadro interessante, provavelmente tardio, mas onde se vê bastante intervenção de ajudantes, embora a ideia seja muito bonita, sobretudo no contraste entre o pano escuro, mas lúcido, e esse amarelo típico do mestre, esse domínio da cor que ele tem", afirma o curador-adjunto. (Segue)
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