Egito nega que italiano foi torturado por governo no Cairo

ROMA E CAIRO, 01 MAR (ANSA) - O Ministério da Justiça do Egito desmentiu nesta terça-feira (01) que o estudante italiano, Giulio Regeni, tenha sido torturado pelo governo por dias antes de morrer conforme um relatório de autópsia teria revelado.   

Segundo o órgão, o chefe pelo Departamento de Medicina Legal, Abdel Hamid, "não foi convocado pela Procuradoria". "Esta notícia publicada pela mídia, que cita um depoimento de Abdel Hamid perante à Procuradoria é mentirosa e destituída de qualquer fundamento", disse o porta-voz do Ministério, Shaaban el-Shami, ressaltando que o chefe do setor "ainda não fez nenhum testemunho".   

O órgão se referia a uma notícia publicada pela agência de notícias "Reuters", que, com base em um depoimento de dois procuradores egípcios, revelou que Regeni foi torturado por sete dias antes de morrer.   

De acordo com a denúncia, o método de interrogação utilizado, que incluía queimaduras na pele com cigarros e por períodos de tempo definido, é utilizado "pelos serviços de segurança egípcios". Ainda conforme a agência, esse método comprovaria que quem matou o estudante italiano estava "em busca de informações" sobre seu trabalho no país.   

O Ministério ainda informou que irá "procurar" quem fez essas declarações para que respondam perante à Justiça. Segundo El-Shami, a mídia "tem que evitar publicar notícias que provenham de fontes que querem deformar a realidade por motivos políticos e que não tem nada a ver com a verdade".   

Essa é a segunda vez que o governo do Cairo nega que a morte de Regeni tenha motivos ligados à política do país. Após ser acusado pelo jornal "The New York Times" de ter matado o estudante por tê-lo confundido com um espião, os egípcios informaram que nunca prenderam para depoimento o italiano.   

O jornal "Al-Akbhar", no entanto, informou que o depoimento das 24 testemunhas investigadas pelo assassinato do italiano já foram ouvidas. Eles seriam amigos, colegas de pesquisa e vizinhos de Regeni no Cairo e não incluiriam fontes oficiais.   

Uma dessas testemunhas, um advogado que convivia com o italiano, afirmou que o pesquisador estava "muito inquieto" antes de desaparecer, no dia 25 de janeiro, e que pedia para não sair de casa no dia que marcava os cinco anos da Primavera Árabe por medo de "atos violentos". Apesar disso, o italiano desapareceu justamente no dia da "celebração" da revolta, sendo que seu cadáver foi encontrado com parte das orelhas mutiladas e queimaduras pelo corpo no dia 3 de fevereiro.   

No entanto, o periódico destaca que Regeni "pode ter sido traído" por uma das instituições as quais fazia consultas, a Oxford Analytica. De acordo com o jornal, a análise do computador feito por investigadores italianos apontava um "relacionamento intenso" entre Regeni e a entidade. Porém, quando esses rumores começaram a aparecer, há cerca de duas semanas, a Oxford Analytica informou que o italiano "se preocupava apenas com produção editorial".   

A relação da morte do pesquisador com seu trabalho já havia sido levantada pelos investigadores. Eles acreditam que as informações recolhidas podem ter caído em "mãos erradas" ou terem sido usadas como chantagem.   

O pesquisador viajara ao Egito para desenvolver uma tese sobre economia, mas também contribuía com o jornal comunista italiano "Il Manifesto". Em seu último artigo, publicado após sua morte, ele acusa o presidente egípcio, Abdel Fatah al Sisi, de obter o controle do Parlamento com o "maior número de policiais e militares da história do país, enquanto o Egito está na parte inferior de todas as classificações mundiais sobre respeito à liberdade de imprensa".   

A matéria também mostra como sindicatos independentes tentam se manter vivos na nação africana, que permite a existência de uma única entidade sindical, a Etuf, fiel a Sisi.   

Além disso, Regeni diz em seu texto que o presidente assumiu o poder graças a um golpe militar, o mesmo que derrubou Mohamed Morsi, ligado à Irmandade Muçulmana. Antes de morrer, ele pediu para o jornal publicar o artigo sob um pseudônimo. (ANSA)
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