Para cardeal,casos de pedofilia na Igreja foram coincidência

ROMA, 03 MAR (ANSA) - Com uma maratona final de seis horas, chegou ao fim na madrugada desta quinta-feira (03) a quarta e última sessão de depoimentos do cardeal George Pell a uma comissão australiana que investiga o acobertamento da Igreja Católica em casos de pedofilia entre os anos 1970 e 1980.   

Segundo o australiano, que atualmente atua como Prefeito de Assuntos Econômicos do Vaticano, foi uma "desastrosa coincidência" a quantidade de padres pedófilos que atuavam na diocese de Ballarat nos anos de 1970, quando ele atuava na região. Ao fim da maratona judicial, Pell destacou que a situação foi "dura", mas que "espera ter contribuído para melhorar a situação".   

O cardeal ainda confirmou que fará um encontro com as vítimas de Ballarat, a cidade onde foi registrada a maior quantidade de abusos. A mídia australiana ainda informou que o grupo de 14 vítimas que está em Roma para acompanhar o julgamento terão um encontro com os representantes da Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores.   

O australiano não é acusado de ter cometido o crime de pedofilia, mas sim de ter acobertado a atuação de padres pedófilos quando foi bispo de diversas dioceses da Austrália.   

Porém, ele negou as acusações de que mentiu para salvar sua reputação. "Eu errei em ter confiado naquele capelão", disse referindo-se ao padre Gerald Ridsdale, que está preso na Austrália, por abusar de 53 vítimas.   

Ao sair do tribunal, o religioso informou que "toda a liderança da Igreja na Austrália está empenhada em evitar a repetição da terrível história do passado e de buscar melhorar as coisas".   

- As investigações e os depoimentos: Pell deu o depoimento a partir do Hotel Quirinale, através de videoconferência, por problemas de saúde impedirem a viagem até Melbourne. Além do religioso, os comissários liderados por Gail Furness interrogaram advogados dos acusados e das vítimas, algumas delas em Roma e outras na Austrália.   

Ao longo dos últimos anos, quando o caso tornou-se público, o cardeal sempre negou que sabia dos muitíssimos caos de pedofilia na diocese de Ballarat, onde foi vice-pároco entre os anos de 1973 e 1983. O australiano ainda era consultor do bispo Ronald Mulkearns, o qual autorizava constante mudanças de paróquias do padre Gerald Ridsdale, que cometeu os abusos por cerca de 30 anos e que atualmente está na prisão por 138 crimes cometidos contra 53 pessoas.   

O religioso acusou não apenas Mulkearns sobre os crimes, mas também o líder do Escritório de Educação Católica e arcebispo de Melbourne, Fran Little, de tê-lo enganado e de ter escondido as denúncias das vítimas e de suas famílias. Para Furness, essas declarações "não são plausíveis".   

Nas três primeiras audiências, dois advogados de acusação usaram declarações do cardeal que afirmava que, após saber de inúmeros casos de Risdsdale, era "uma história triste, mas não desperta grande interesse em mim". Ontem, o cardeal buscou esclarecer o que disse, afirmando que "se arrepende da escolha das palavras" e que "estava muito confuso e respondi mal". Além disso, ele tentou minimizar as palavras dizendo que lamentava as lágrimas que tantas vítimas, suas famílias e a sociedade derramaram.   

Uma série de perguntas também foram sobre o padre Peter Searson, acusado de ter abusado sexualmente de menores nos anos 1970 e de ter, pouco tempo depois, apontado uma arma contra os membros da Igreja e de ter esfaqueado um pássaro em frente às crianças.   

Pell afirmou que não se lembrava de uma reunião na qual foram apresentadas as queixas da comunidade sobre estupros e violentas punições.   

Da investigação, apareceu que Searson - que faleceu em 2009 - foi alvo de muitas reclamações, que iam desde o fato dele frequentar os banheiros dos meninos, de gravar confissões de fiéis e de colocar meninos de joelhos entre suas pernas.   

Nas audiências, no entanto, foi o advogado de Pell, Sam Duggan, quem buscou demonstrar que o cardeal tinha pouco contato com Ridsdale e Searson durante o período das denúncias. Duggan ressaltou que o então vice-pároco chegou a entregar pessoalmente uma carta na qual demitia Searson em 1998, em uma medida que não havia sido aprovada pelo Vaticano.   

"Eu ignorei a decisão de Roma e Roma não insistiu", afirmou aos investigadores. O problema, segundo a acusação, é que o Escritório de Educação Católica já tinha enviado uma lista de queixas contra o padre nove anos antes, em 1989.   

Porém, os "sobreviventes" do abuso informaram que não confiam mais no cardeal Pell e que querem se encontrar com o Papa sobre o caso. "George Pell continua a defender o modelo comum da Igreja, um modelo que demonstrou seu um fracasso em proteger as crianças dos abusos sexuais do clero. Estamos cansados do que ele diz", disse o porta-voz do grupo de 14 australianos que está em Roma, Philip Nagle. (ANSA)
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