Lava Jato, a operação 'Mãos Limpas' do Brasil

BRASÍLIA, 04 MAR (ANSA) - O escândalo de corrupção na Petrobras foi aberto em 2014 como um processo de relativo impacto, até alcançar seu ponto mais alto nesta sexta-feira (4), com a busca no apartamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um fato destinado a repercutir no governo de sua correligionária, a mandatária Dilma Rousseff.   


A cargo do juiz federal de primeira instância Sergio Moro, a operação batizada de "Lava Jato" começou com as averiguações sobre o cartel formado por grandes construtoras privadas para ganhar licitações na Petrobras. Vale recordar que a estatal petrolífera ampliou consideravelmente seus investimentos a partir do descobrimento de grandes poços em águas ultraprofundas ou na zona do pré-sal para a construção de navios, sondas e equipamentos.   


Moro e o grupo de trabalho da Lava Jato, que nesta sexta realizou sua 24ª fase de buscas e apreensões, têm como referência o processo judicial italiano "Mãos Limpas", iniciado no começo dos anos 1990 por Antonio Di Pietro e outros promotores de Milão. Um ensaio escrito anos atrás por Moro elogia a eficácia de alguns aspectos da "Mãos Limpas", como a delação premiada para desmontar a cadeia de cumplicidades na Itália, levados nos últimos meses para o "Petrolão".   


A operação italiana atingiu os mais altos níveis políticos, econômicos e institucionais do país e provocou o desaparecimento ou redimensionamento dos principais partidos da época, como a Democracia Cristã e o Partido Socialista Italiano, fundando a Segunda República. Ao todo, os promotores milaneses obtiveram 1,2 mil condenações por corrupção e crimes correlatos e provocaram um terremoto na Itália.   


Os três anos da investigação inicial provocaram uma desconfiança generalizada nos partidos e também foram marcados por uma grave crise econômica, prisões em sequência e atentados da máfia. Ao mesmo tempo, havia uma grande esperança - mais tarde despedaçada - de que a "Mãos Limpas" levasse mais transparência e honestidade ao poder público.   


Para o presidente da ONG Transparência Internacional, o peruano José Ugaz, o desafio do Brasil é fazer com que os avanços obtidos pela Lava Jato em termos de justiça não se percam com o tempo. "Diferentemente da Itália, é importante que o Brasil mantenha as mudanças conquistadas pela Lava Jato", declarou.   


Moro processou os mais altos executivos das construtoras Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS, vários dos quais se utilizaram da delação premiada, na qual entregaram farta informação em troca da redução de suas penas. Também ex-executivos da Petrobras, como Nestor Cerveró, já estão em prisão domiciliar por terem aceitado colaborar.   


Porém o momento mais político da Lava Jato se abriu com a prisão do ex-homem forte do primeiro governo Lula, José Dirceu, também ex-presidente do PT. Dirceu é tido como o arquiteto da nomeação dos gerentes da Petrobras que foram os executores das manobras que causaram um prejuízo estimado em US$ 2 bilhões.   


Outros ex-dirigentes do PT, como o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, também foram presos e continuam nessa condição no Paraná.   


Dentro da Lava Jato se abriu um segundo plano de ação quando a Polícia Federal, promotores e Sergio Moro começaram a buscar ramificações indiretas. Assim chegou-se a Lula.   


O sinal mais claro de que o ex-mandatário estava na mira dos investigadores foi dado há uma semana, com a prisão do marqueteiro das campanha presidenciais petistas de 2006, 2010 e 2014, João Santana, e de sua mulher, Mônica. O ex-presidente não foi surpreendido dando ordens para irregularidades na Petrobras a seus ministros ou dirigentes do PT, mas suspeita-se que recebeu dinheiro das construtoras, algo estimado em R$ 40 milhões, segundo o Ministério Público Federal.   


Uma parte do dinheiro teria sido usada para pagar conferências, outra para reformar um sítio em Atibaia e um apartamento no Guarujá - Lula nega ser proprietário dos imóveis - e o restante para arranjos no seu instituto. (ANSA)
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