Espanha e Itália, a repetição de uma crise sem fim

SÃO PAULO, 08 MAR (ANSA) - Durante mais de 30 anos, a Espanha viveu em um confortável bipartidarismo. Desde 1982, o Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe) e o Partido Popular (PP) se alternaram no poder, sempre com maioria suficiente para governar. Mas as eleições de dezembro, marcadas pela descrença com a política tradicional, quebraram esse dualismo e jogaram o país em uma crise semelhante à da Itália em 2013.   

Na ocasião, o PP, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, conquistou 119 cadeiras das 350 do Congresso dos Deputados, número insuficiente para governar sozinho. O Psoe, liderado por Pedro Sánchez, ficou em segundo, com 89. Acostumadas a dividir os assentos no Parlamento, as duas legendas viram a ascensão do socialista Podemos (65 deputados) e do Ciudadanos (40), de centro-direita.   

Os dois movimentos ganharam espaço na política espanhola com a crise econômica de 2008 e com a falta de capacidade de PP e Psoe de tirar o país do atoleiro, o que se refletiu em uma crescente desconfiança da população em relação aos partidos que ditaram a vida da Espanha nas últimas três décadas.   

Por conta dos resultados das eleições de 2015, Rajoy foi obrigado a negociar para ser reconduzido ao poder. Sem sucesso.   

A tarefa foi repassada então ao líder do Psoe, Pedro Sánchez, que também fracassou. As negociações entre as quatro legendas mais votadas foram retomadas, porém é cada vez mais forte a possibilidade de o rei Felipe VI convocar um novo pleito para resolver o impasse.   

Na Europa, o sistema dominante é o parlamentarismo, ou seja, o chefe de governo é eleito indiretamente. Nesse modelo, ao líder do partido mais votado cabe a tarefa de estabelecer um gabinete, que precisa necessariamente obter o voto de confiança do Congresso. Quando reina o bipartidarismo, isso é fácil de ser resolvido, já que um dos dois grupos certamente terá a maioria no Parlamento.   

Mas a crise financeira que chacoalhou a Europa nos últimos anos propiciou o surgimento de novas forças e colocou à prova a estabilidade política no continente. O maior exemplo disso é a Itália, que, é verdade, nunca foi conhecida por ser estável. No entanto, o quadro se agravou em 2013, quando as eleições dividiram o Parlamento entre o centro-esquerdista Partido Democrático (PD), o conservador Forza Italia (FI) e o Movimento 5 Estrelas (M5S), uma legenda contrária a políticos tradicionais fundada pelo comediante Beppe Grillo e que se tornou uma das principais forças do país.   

O resultado dessa distribuição foi um frágil governo formado pelos rivais PD e FI, de Silvio Berlusconi, e comandado por Enrico Letta. Nos 10 meses em que ficou no poder, o primeiro-ministro centro-esquerdista conviveu com ameaças constantes de Berlusconi e não conseguiu avançar no Parlamento nenhuma reforma importante.   

O imobilismo fomentou dentro do PD um movimento liderado pelo prefeito de Florença, Matteo Renzi, para derrubar Letta, o que aconteceria em 2015. Convocado pelo presidente Giorgio Napolitano para formar um gabinete, Renzi se tornou primeiro-ministro e tem conseguido conviver melhor com um Parlamento dividido, mas sempre caminhando na corda bamba.   

A saída para a crise política italiana foi o surgimento de um político jovem e impetuoso, o único capaz de ludibriar uma raposa experiente como Berlusconi. Na Espanha, o novato socialista Pedro Sánchez não conseguiu, até aqui, trilhar o mesmo caminho. Nem o veterano Mariano Rajoy. Já são quase três meses sem governo, em uma crise que parece longe de terminar.   

(ANSA)
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