Europa, o refúgio alpino que a Áustria não consegue dividir

BOLZANO, 14 ABR (ANSA) - Por um capricho da história, o refúgio alpino Europa Venna alla Gerla, situado a 2.693 metros de altitude, a poucos quilômetros de Brennero, foi cortado em dois pela linha de fronteira traçada após a Primeira Guerra Mundial.   

Há quase um século, dois terços do edifício estão na Itália, e o restante fica na Áustria. A cozinha se localiza em um país, os quartos, em outro. Com a recente decisão de Viena de fechar a divisa entre as duas nações em Brennero, o Europa Venna alla Gerla voltou a ser símbolo de união.   

"Certamente os controles em Brennero não são um sinal positivo", lamenta o administrador do refúgio, Helmut Holzer. Hoje, em frente ao hotel, tremula a bandeira italiana, a alemã e a europeia, e apenas algumas marcações dos dois lados da construção lembram que ela pertence a dois Estados.   

Não foi sempre assim. O refúgio para alpinistas foi construído pelo clube alpino alemão (DAV) no fim do século 19, e poucos anos depois teve de ser ampliado. Após a Primeira Guerra Mundial, o local ficou vazio por uma década, ao fim da qual o DAV voltou a administrá-lo, mas apenas a parte austríaca.   

Alguns soldados italianos construíram uma escada em caracol no lado de lá, uma espécie de "ressarcimento pela perda do restante do refúgio", como escreveu Alberto Perini no livreto "Refugio Europa Venna alla Gerla".   

A estrutura passou por um novo período de abandono na sequência da Segunda Guerra Mundial, depois do que foi reformado e reaberto pelo DAV. No entanto, ficou fechado de 1966 a 1972 por conta da onda de atentados no território de Alto Adige, palco de movimentos terroristas que defendiam sua separação da Itália e anexação pela Áustria.   

Quando voltou a funcionar, foi apenas do lado austríaco. A parte italiana foi usada por muitos anos pela Guarda de Finanças do país. "Quando criança, os agentes nos expulsavam quando nos aproximávamos", lembra o alpinista Hanspeter Eisendle, nascido na região.   

Na década de 1980, com um grande esforço de todos - clubes alpinos, voluntários e Exércitos, que ofereceram seus helicópteros -, o refúgio foi novamente reformado, rebatizado como Europa Venna alla Gerla e inaugurado com uma grande festa binacional. "No último domingo [10], estive no Gerla [pico com 2.998 metros de altitude], a dois passos do hotel, e ali não se percebem fronteiras. É um absurdo reintroduzir os controles em Brennero. Não existem fronteiras intransponíveis. É impossível parar quem quer chegar à Áustria e à Alemanha, basta que atravessem a divisa a pé pelas montanhas, como fizeram no passado os contrabandistas", completa Eisendle.   

A decisão de construir uma barreira na divisa em Brennero foi tomada por Viena para controlar o fluxo de solicitantes de refúgio proveniente da Itália, segundo país que mais recebe imigrantes ilegais na Europa, atrás apenas da Grécia. Uma medida semelhante deve ser adotada em cidades na fronteira com a Hungria. No entanto, 2.693 metros acima do nível do mar, uma construção centenária continua lembrando os governos o que representa a palavra Europa. (ANSA)
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