Em Roma, ateliê mantém viva técnica de 'vidro soprado'

Por Alessandra Chini e Martino Iannone ROMA, 19 ABR (ANSA) - No coração de Roma, a poucos passos de Porta Pia, existe um lugar no qual o tempo parece suspenso. É o pequeno ateliê onde trabalham Maria Beatrice Cesari e Aldo Frasca. Um dos maiores diferenciais do local é que o casal mantém viva a longínqua tradição artesanal do restauro de objetos de vidro através da técnica de "vidro soprado", que molda objetos desse material a partir das chamas de um maçarico e do sopro da pessoa que está produzindo a peça.   


Na entrada da loja, um imponente lustre de cerca de três metros de altura e feito de pequenos prismas coloridos recebe os interessados e visitantes. "Aquele [lampadário] estava na sala do presidente do Banco da Itália [o equivalente ao Banco Central brasileiro] na década de 1960", conta Frasca.   


No entanto, esta não é, de longe, a peça mais antiga do lugar, que abriga produtos até do século 16. Andando com cuidado pelas luminárias que foram produzidas no século 17 e pelas obras de art decò, depara-se finalmente ao laboratório onde Cesari sopra o vidro criando objetos simples ou elegantes. A técnica foi ensinada à italiana quando esta ainda era uma menina e foi cultivada por ela por mais de 40 anos. Segundo Cesari, a tradição é "altarese", ou seja, da pequena vila de Altare, na região da Ligúria, que foi muito influenciada pela arte dos vitrais dos Flandres e onde a italiana aprendeu a sua profissão. Deste momento em diante, uma das poucas mulheres a ser expert na técnica na Itália a levou para Roma.   


O trabalho, junto com o marido, já levou Cesari a São Petesburgo, na Rússia, para cuidar de um lustre veneziano do Palazzo del Duca Wladimir, no Museu de Hermitage. Mas não só isso, lampadários venezianos do Conselho de Estado italiano, os da mansão de Mafalda de Savoia e alguns de museus e residências particulares do país também já passaram pelas mãos do casal.   


Mais recentemente, por exemplo, os dois foram à cidade de Aquila, onde há sete anos, vários objetos de vidro e cristal foram destruídos por causa do grande terremoto que atingiu o município.   


Já sobre os últimos trabalhos pelos quais os dois ficaram responsáveis, Cesari diz com orgulho que um dos mais impressionantes foi uma "penteadeira do século 16 refeita com 2.110 folhas de vidro de diversas dimensões e que se encontra no museu de Pesaro". Outro trabalho que, para ela, merece destaque é um lampadário do século 18 da Pinacoteca do Palazzo Civico da cidade de Ascoli Piceno. "Na sala há um quadro de Tiziano [grande pintor do renascimento italiano], mas todos os turistas olham para cima para o nosso lustre", contou a italiana. O casal também trabalhou para cinema criando objetos para vários artistas e até para o cineasta Martin Scorcese. Já para o Centro de Pesquisas Nusicais de Roma (CRM), os italianos criaram uma enorme escultura de vidro que produz um belo som quando tocado.   


No entanto, a tradição deles corre risco de desaparecer, mesmo com tentativas de entrar em novos nichos de mercado, principalmente os de países estrangeiros. "O problema é que as instituições italianas estão cruas. Não estou interessado em salvar as artes decorativas. Acredito que tudo acabará indo para os Estados Unidos, mas talvez seja melhor assim", disse Frasca.   


(ANSA)
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