Caso sobre relação de governo da Itália com máfia vira livro

PALERMO, 01 JUN (ANSA) - O italiano Antonino Ingroia, um dos ex-juízes que analisou o pedido de destruição de interceptações telefônicas entre o ex-presidente Giorgio Napolitano e seu então ministro, Nicola Mancino, no caso de um suposto envolvimento do Estado e da máfia, afirmou à ANSA que lançará um livro sobre o imbróglio judicial.   

"Já estou trabalhando em uma obra literária, um romance no qual contarei várias coisas", disse o ex-juiz nesta quarta-feira (31).   

O caso judicial, que ficou conhecido na Itália como "Stato-Mafia", se referia a uma suposta "intervenção" do governo para parar uma série de atentados provocados pelo grupo mafioso Cosa Nostra. Segundo as diversas denúncias, que nunca tiveram um desfecho concreto, entre o final dos anos 1980 e o início da década de 1990, houve acordos para evitar um maior derramento de sangue e um afrouxamento na caça aos mafiosos.   

As ações criminosas seriam uma resposta do líder da Cosa Nostra, Totó Riina, a uma maior atuação da Justiça italiana em diversos esquemas mafiosos - em grande parte, liderados pelo juiz Giovanne Falcone - morto em um atentado em 1992 em emboscada armada pelo próprio Riina.   

Entre o material que foi apreendido pela Justiça, estavam quatro telefonemas entre Napolitano e Mancino - que fizeram o ex-mandatário depor novamente em outubro de 2014. Após a divulgação de que as conversas haviam sido grampeadas, um conselheiro de Napolitano, Loris D'Ambrosio, enviou uma carta ao político expressando preocupação de ter sido "ingênuo" e um "escudo para proteger" Mancino.   

Em 2012, no entanto, houve um pedido da defesa de Napolitano para destruir essas gravações, dado o fato de que elas poderiam revelar conversas "fundamentais" sobre estratégias do governo no início da década de 1990. E é nesse momento, que a história de Ingroia aparece.   

Em julho, Ingroia pede que Mancino - que é acusado de falso testemunho - e mais outros 12 acusados sejam julgados pela Justiça pelo "Stato-Mafia". Sua postura sempre foi contra a destruição desse material pelo fato disso ser "apenas" interesse político.   

Dois dias após solicitar o julgamento, no entanto, o Conselho Superior de Magistratura concedeu a Ingroia a possibilidade dele seguir carreira no exterior, onde ele foi para a Guatemala por um ano. Em 2013, por decisão de outro juiz, todos os áudios com a participação de Napolitano foram destruídos pela Justiça.   

Comentando os novos pedidos do Ministério Público de Palermo para verificar "traços" nos servidores dessas gravações, Ingroia foi irônico e disse estar "fascinado" com a preocupação.   

"Eu fico fascinado com o fato que, em frente a tantas disfunções do planeta judicial em várias partes da Itália - o qual percebo sobretudo agora que sou advogado - que o Ministério da Justiça, anos depois, se preocupa ainda com interceptações de Napolitano e Mancino - chegando a gastar dinheiro público para pagar a um perito técnico, não confiando nos magistrados, que mais de uma vez haviam esclarecido que aquelas interceptações foram destruídas", concluiu o ex-juiz à ANSA. (ANSA)
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