Massacre em Orlando desafia candidatos à Presidência dos EUA

Por Beatriz Farrugia SÃO PAULO, 16 JUN (ANSA) - Os tiros disparados pelo jovem de origem afegã Omar Sediqque Mateen acabaram com a vida de 49 pessoas na noite do último sábado (11), dentro da boate Pulse, em Orlando, na Florida. Mas a pólvora de seu revólver foi mais além e inflamou uma sociedade de 318 milhões de norte-americanos cujo destino também pode ser mudado com as consequências políticas da tragédia. Mateen, de 29 anos, escolheu a casa noturna Pulse, frequentada por gays majoritariamente de origem latino-americana, para disparar seu fuzil AR-15 e sua pistola 9 mm em forma de protesto contra ações norte-americanas no Oriente Médio, principalmente no Afeganistão. Momentos antes de ingressar na boate, ele também jurou lealdade ao grupo extremista Estado Islâmico (EI, ex-Isis), que celebrou o atentado nas redes sociais, e confessou a um atendente do 911 que tinha "motivações islâmicas" para atacar. Um atentado contra a comunidade gay, em uma zona marcada pela imigração latina, com o uso de arma de fogo e em nome de terroristas islâmicos. Quatro temas sensíveis à política doméstica norte-americana que logo esquentaram o debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, líderes das indicações democrata e republicana à Presidência dos Estados Unidos. "Esse ataque é algo abrangente, pois coloca numa mesma cesta vários assuntos delicados da cultura norte-americana: o pavor do terrorismo, a imigração e os direitos individuais", disse em entrevista à ANSA a especialista Solange Reis, coordenadora do Observatório Político dos Estados Unidos (Opeu).   

Nessa gama de pontos a serem discutidos, e em uma fase crucial para as eleições -- que ocorrerão em novembro --, Hillary e Trump tentam jogar os holofotes para os assuntos que mais lhes convêm. Há quase um ano fazendo declarações polêmicas, racistas, islamofóbicas e xenófobas como pré-candidato republicano, o magnata de 70 anos recém-completados não hesitou em aproveitar a tragédia em Orlando para promover sua ideia de barrar a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos e de espalhar o sentimento de que o país está vulnerável a novos atentados terroristas. "Trump já vinha batendo nessa tecla há meses, dizendo 'olha, vamos sofrer ataques de muçulmanos radicais'. A tragédia em Orlando se encaixa exatamente na agenda dele, que vai permanecer com esse discurso e pode até se beneficiar politicamente", afirmou o cientista político Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM. "Antes de San Bernardino, não tinha ocorrido nada que poderia ser considerado ato de terrorismo em solo norte-americano", ressaltou o especialista, referindo-se ao tiroteio de dezembro, na Califórnia, que matou 14 pessoas e foi tachado como um atentado cometido pelo casal Syed Farook e Tashfeen Malik, ambos de origem paquistanesa. "A maior novidade dessa história foi a reação de Trump. Ele não se inibiu em politizar a tragédia. Espera-se uma postura de solidariedade de qualquer candidato, mas ele teve um gesto eleitoreiro", disse, por sua vez, o coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) Luis Fernando Ayerbe, que é membro do Conselho Acadêmico do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).   

Já Hillary, com o apoio do presidente Barack Obama, preferiu apostar no discurso pela necessidade de mudanças na comercialização de armas de fogo no país, apelo que tem sido feito pela democrata e pelo próprio mandatário todas as vezes que um incidente acontece. "A forma com que Trump respondeu ao público após o ataque em Orlando foi o oposto da de Hillary, que usou um discurso pronto e politicamente correto", disse Cukier. "Mas a discussão não é sobre muçulmanos, nem sobre armas. É sobre terrorismo e lobo solitário, da mesma maneira que ocorreu na Bélgica ou na França, onde as legislações para venda de armas são mais rígidas. Mas os dois candidatos estão tentando descontextualizar isso, tentando puxar cada assunto para seu argumento político", acrescentou o professor da ESPM. No entanto, no jogo de discurso entre o terrorismo e as armas de fogo, o segundo assunto parece estar atraindo mais atenção do público neste momento, inclusive sendo impulsionado pelos principais jornais do país, como o "The New York Times". "A discussão sobre a venda de armas é, historicamente, a mais difícil do país e vai colocar Hillary e Trump em situações opostas nos debates eleitorais", analisou Solange Reis. "Hillary sempre defendeu o controle maior sobre a venda de algumas armas, e não o banimento total da comercialização ao público", completou a especialista, ressaltando que os republicanos, por sua vez, são mais propensos a defenderem a liberdade da compra. A polêmica em torno da comercialização de armas se dá porque a Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos garante o direito de todo cidadão manter e portar arma de fogo, benefício que se torna mais valorizado em época de ameaça terrorista ou à segurança nacional. Além disso, as fabricantes de armas mantêm um lobby forte no país e impedem qualquer legislação de reforma.   

Até as eleições de novembro, porém, o debate sobre a venda de armas pode perder força caso novos ataques com motivações religiosas ocorram nos EUA, o que viraria o jogo político para Trump e enfraqueceria o discurso de Hillary.   

"O principal, entre todas as consequências do atentado de Orlando, é prestar atenção minuciosamente em como a posição e o discurso de cada candidato influenciará nas urnas. Se Trump colher reações positivas, apontará uma tendência de sucesso que poderá passar a ser aplicada em outros países, com outros candidatos", alertou Ayerbe. (ANSA)
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