M5S: Do voto de protesto à Prefeitura de Roma

ROMA, 21 JUN (ANSA) - Apenas alguns meses atrás, o Movimento 5 Estrelas (M5S) vivia talvez o momento mais difícil de sua curta existência. A morte de seu cofundador e ideólogo, Gianroberto Casaleggio, e os problemas enfrentados pelos seus prefeitos em cidades como Livorno e Parma fomentavam dúvidas sobre o partido, que tem uma plataforma populista e antissistema.   

Tudo mudou no último dia 19 de junho, quando o M5S venceu 19 das 20 disputas do segundo turno das eleições municipais na Itália em que participava, incluindo a capital e maior cidade do país, Roma, com Virginia Raggi, e, de maneira ainda mais surpreendente, com Chiara Appendino em Turim, um bastião histórico da esquerda.   

"Isso foi só o começo. Agora depende apenas de nós", disse o outro fundador da legenda, o humorista Beppe Grillo, ainda no calor da vitória. O Movimento 5 Estrelas nasceu em 2009 e logo chacoalhou a política italiana, até então polarizada entre a centro-esquerda herdeira do Partido Comunista - hoje representada pelo Partido Democrático (PD), do primeiro-ministro Matteo Renzi - e a centro-direita liderada por Silvio Berlusconi.   

Com um discurso crítico às legendas tradicionais, o movimento diz ser um "não-partido" e defende a adequação dos salários dos parlamentares à média nacional, o veto a candidaturas a cargos públicos de cidadãos condenados (medida que afeta o próprio Grillo, sentenciado por homicídio culposo em um acidente de carro que matou três amigos) e a "participação direta" dos eleitores via web em debates e processos decisórios - todas as posições importantes tomadas pelo M5S são votadas pelos seus militantes no blog do comediante.   

Com essa postura, canalizou o voto de protesto e, em 2013, tornou-se a segunda maior força da Câmara dos Deputados e a terceira do Senado. A recusa do movimento em negociar com as siglas do establishment forçou o PD a se aliar a Berlusconi para formar um governo, chefiado naquele ano por Enrico Letta.   

O ex-Cavaliere rompeu a aliança e foi cassado pelo Senado, Letta caiu, e hoje o primeiro-ministro é o centro-esquerdista Matteo Renzi, que se mantém no cargo graças ao apoio do Nova Centro-Direita (NCD), partido do ministro do Interior Angelino Alfano. O M5S faz uma oposição bastante dura ao premier, mas seu isolacionismo sempre o manteve longe do poder.   

Até o último domingo, a maior cidade sob seu comando era Parma (190 mil habitantes), onde elegeu o prefeito Federico Pizzarotti em 2012. Mas o que era um sinal de crescimento acabou virando um problema: defensor intransigente da "honestidade", Pizzarotti está sendo investigado por abuso de poder, colocando na berlinda o M5S, que o suspendeu.   

Além disso, em Livorno, berço do Partido Comunista Italiano (PCI), o prefeito Filippo Nogarin, que rompeu um longo domínio da esquerda no município, é alvo de inquérito por falência fraudulenta. A sigla também já teve de expulsar alcaides que se recusaram a cortar seus salários ou deixaram de denunciar pressões da máfia.   

Atualmente, seu principal nome nas instituições italianas é Luigi Di Maio, que tem 29 anos e é vice-presidente da Câmara dos Deputados. No entanto, Beppe Grillo continua liderando o movimento com mão de ferro. Divergências no seio do partido costumam ser punidas com a expulsão e ataques verborrágicos na internet, e há muita controvérsia sobre a participação da consultoria digital Casaleggio Associati no M5S.   

Seu ex-proprietário, Gianroberto Casaleggio, morto em abril passado por causa de um derrame, cofundou a legenda e era o responsável por sua estratégia na web. Mais do que isso: apesar de ter ficado sempre à sombra de Grillo, era tido como o verdadeiro "guru" do movimento. Também controlava o mecanismo de participação popular da sigla, gerando não poucas acusações de falta de transparência e conflito de interesses.   

O M5S não possui uma sede física, e seus membros costumam visitar a Casaleggio Associati, que, em última instância, é uma empresa privada. Os candidatos que levam o nome do movimento, incluindo Raggi e Appendino, são obrigados a assinar um contrato no qual se comprometem a pagar multas elevadas se prejudicarem sua imagem e a submeter todas as decisões importantes à "equipe de Beppe Grillo".   

Durante a campanha, Raggi, que tem 37 anos e escassa experiência na vida pública, foi acusada pelos seus adversários em Roma de ser um mero fantoche do humorista e da Casaleggio Associati, agora em nome do filho de Gianroberto, Davide.   

O Movimento 5 Estrelas diz não ser "nem de direita, nem de esquerda". O Grillo que brada contra a União Europeia e se aproxima do extremista britânico Nigel Farage é o mesmo que critica grandes conglomerados industriais e financeiros e sai em defesa do ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva.   

Com Roma e Turim nas mãos, o partido terá uma chance inédita de mostrar a que veio, porém o tombo também pode ser fatal se Raggi e Appendino se mostrarem um fracasso. (ANSA)
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