O que acontecerá com o Reino Unido após o referendo?

Por Lucas Rizzi SÃO PAULO, 22 JUN (ANSA) - Mais de 46 milhões de britânicos irão às urnas nesta quinta-feira (23) para decidir se o Reino Unido deve romper ou não seu casamento de 43 anos com a União Europeia, ainda sob a comoção pelo assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, que jogou ainda mais dúvidas sobre uma disputa já bastante acirrada.   

A última pesquisa de intenção de voto, publicada pelo instituto Opinium nesta quarta-feira (22), mostra os eurocéticos liderando por 45% a 44% - quatro dias atrás o placar era de 44% a 44%. Os números indicam que a parcela de pouco mais de 10% de indecisos será o fiel da balança, mas é preciso ver as sondagens com certa reserva.   

Em setembro de 2014, pouco antes do plebiscito sobre a independência da Escócia, as pesquisas apontavam para uma vitória bastante apertada dos unionistas, mas as urnas deram a eles um triunfo de mais de 10 pontos de vantagem.   

O certo é que, independentemente do resultado desta quinta-feira, tanto Londres quanto Bruxelas terão de mostrar uma capacidade de liderança que faltou até aqui e cuja ausência permitiu que a União Europeia e sua segunda maior economia chegassem à beira do divórcio.   

Confira abaixo alguns dos cenários possíveis para o pós-referendo: - Em caso de vitória do "Leave" ("Saída"): Se os eurocéticos vencerem, a União Europeia perderá sua segunda maior economia, ficará sem um de seus maiores contribuintes (terceiro ou quarto, dependendo do ano) e pode presenciar um movimento de reconfiguração geopolítica do bloco.   

Isso porque um dos desdobramentos de um rompimento seria o fortalecimento dos anseios separatistas na Escócia, onde as pesquisas para o referendo desta quinta dão ampla vantagem para os europeístas. Caso esse cenário se confirme, os nacionalistas se veriam ainda menos representados por uma Londres eurocética.   

"Nações sem Estado, como Catalunha, País Basco e Lombardia, podem se sentir tentadas a buscar a independência e o relacionamento direto com a União Europeia", explicou Marcus Vinicius de Freitas, professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em entrevista à ANSA Brasil.   

Isso pode aumentar a tensão em nações como Espanha, França e Itália, sendo que estas duas últimas já concentram movimentos eurocéticos consistentes e que gozam de amplo apoio popular.   

"Acho muito provável, caso o resultado seja 'não' [à UE], que a pressão para a Escócia ter outro plebiscito sobre independência aumente muito", salienta o professor Kai Lehmann, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP).   

Ele lembra que o ceticismo em relação à União Europeia está se espalhando por muitos países, incluindo tradicionais defensores de Bruxelas, como Alemanha e Holanda. "Seja vitória do sim ou do não, a União Europeia tem de refletir sobre seus rumos", acrescenta.   

Além disso, há o risco de desestabilização interna no Reino Unido. O Partido Conservador, liderado por David Cameron, tem se mostrado dividido sobre o referendo, pendendo mais para a saída, porém o primeiro-ministro fez campanha pela permanência. Uma derrota nas urnas certamente aumentará a pressão por sua renúncia.   

O chefe de governo ainda poderia se ver ameaçado no cargo enquanto negocia as condições para a retirada britânica, com a possibilidade de a UE fazer jogo duro. Londres e Bruxelas sentarão à mesa para renegociar suas relações em uma série de áreas, como imigração, inteligência e, principalmente, economia.   

Uma das hipóteses seria o Reino Unido manter um acordo de livre comércio com o bloco, como fazem Suíça e Noruega, mas aí o país teria de se adaptar a algumas regras europeias, as mesmas das quais boa parte dos britânicos quer fugir. "A UE pode endurecer o processo de saída como forma de aprendizado para países que estejam considerando essa possibilidade. Mas, se o Reino Unido se der melhor fora da União Europeia, isso pode desestabilizar o projeto europeu", destaca Freitas.   

- Em caso de vitória do "Remain" ("Permanência"): O principal desdobramento de um triunfo europeísta é saber até que ponto as concessões negociadas pelo Reino Unido serão de fato entregues pela União Europeia. O acordo com Bruxelas dará a Londres um "status especial", nas palavras de Cameron, e limitará sua integração política ao bloco.   

Se permanecerem, os britânicos manterão a perspectiva de uma UE voltada apenas a um projeto comercial, mas essa espécie de "Europa à la carte", com o Reino Unido usando apenas aquilo que lhe interessa, também pode prejudicar o projeto comum. "Isso criaria uma Europa com velocidades de integração diferentes.   

Quando você tem várias velocidades dentro do mesmo corpo, ele começa a se desintegrar", diz o professor da Faap.   

Na visão de Londres, é preciso empoderar o seu Parlamento e reduzir as competências de Bruxelas, negociando novos níveis de contribuição para a União Europeia e rechaçando regras comuns de política fiscal e regulamentação bancária. Por outro lado, uma eventual vitória europeísta poderia arrefecer por um momento o ânimo de movimentos eurocéticos em outros países, que estão prontos para subir o tom caso as urnas digam "sim" ao divórcio.   

(ANSA)
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