Análise/O acerto de contas entre Erdogan e o Exército

Por Stefano Polli ROMA, 15 JUL (ANSA) - O acerto de contas chegou. O Exército da Turquia disse "basta" e decidiu que já era o suficiente. O presidente Recep Tayyip Erdogan havia levado o país muito além dos limites aceitáveis por aqueles que se consideram o último baluarte da segurança nacional e da democracia laica fundada pelo pai da pátria Kemal Ataturk.   

O golpe desta sexta-feira (15) chega no fim de um longo braço de ferro entre o "sultão" Erdogan, que promoveu uma severa islamização da Turquia, e os militares, que sempre se opuseram ao retorno ao passado otomano, aos califados e ao direito islâmico.   

Erdogan parecia o dono do país, onde havia diminuído os níveis de democracia interna, perseguido minorias e colocado mordaças na livre informação. Mas cometeu um erro estratégico fundamental: ignorou a história de seu país e subestimou o papel do Exército, verdadeiro guardião da tradição kemalista e profunda instituição laica e ocidental.   

O Exército da Turquia é o segundo, após o dos Estados Unidos, em potência e dimensão entre os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), de quem é considerado sentinela fiel na frente oriental. No passado, os militares turcos protagonizaram três golpes de Estado, em 1960, 1971 e 1980.   

Intervieram a cada vez que acreditaram que as bases construídas por Ataturk estavam sob risco. Mas nunca ficaram muito tempo no poder, três anos no máximo, favorecendo depois o retorno à democracia. No entanto, continuam crendo que seu papel é vigiar para que a estrada desenhada pelo pai da pátria seja fielmente seguida.   

Os militares são uma potência absoluta, gozam de ampla autonomia econômica, e o orçamento da Defesa, que representa 16% dos gastos do Estado, não está sujeito a nenhum controle do Parlamento. Investem em outros setores e formam historicamente a instituição mais sólida do país.   

O Exército acompanhou atônito a deriva islâmica de Erdogan, aquilo que consideraram uma traição a Ataturk, e as mudanças radicais na tradicional política externa turca. O país se afastou do Ocidente e da Europa, olhou para o Oriente e estreitou laços com algumas das nações mais intransigentes do mundo sunita, despedaçando a histórica e estratégica aliança com Israel.   

Mas as gotas que fizeram o copo transbordar foram a aventura na Síria, a contraposição a Bashar al Assad, a ajuda econômica, política e militar a grupos terroristas baseados a poucos quilômetros de distância da fronteira síria e, por último, o duelo militar com a Rússia de Vladimir Putin.   

E, apesar de tudo, o nacionalismo visceral de grande parte da opinião pública garantiu sucessos e vitórias a Erdogan. Seus seguidores saíram às ruas para combater os golpistas, na noite que definirá o futuro da Turquia moderna. (ANSA)
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