Papa diz que críticas de cardeais 'não tiram seu sono'

CIDADE DO VATICANO, 18 NOV (ANSA) - Em uma entrevista ao maior jornal católico da Itália, o "Avvenire", o papa Francisco falou sobre uma carta que recebeu de cardeais conservadores questionando sua exortação "Amoris laetitia" ("A alegria do amor", em tradução livre) e disse que isso "não tira seu sono".   

"Quanto às opiniões é preciso sempre distinguir o espírito com que elas são ditas. Quando não há um espírito bravo, elas também ajudam a caminhar. Outras vezes, você vê que as críticas dadas aqui e ali são para justificar uma posição já assumida, não são honestas. São feitas com um espírito bravo para fomentar a divisão", disse o Pontífice.   

Segundo o líder católico, os ataques à "Amoris laetitia" nascem "de um certo legalismo que pode ser ideológico".   

"Alguns continuam a não compreender: ou é branco ou é preto, mesmo que esteja no fluxo da vida o discernimento. O Concílio disse isso, mas os historiadores dizem que um Concílio, para ser bem absorvido pelo corpo da Igreja, tem necessidade de um século. Bem, estamos na metade", ressaltou o Papa lembrando o Concílio Vaticano II, realizado pela Igreja Católica entre os anos de 1962 e 1966.   

As falas de Jorge Mario Bergoglio referem-se a uma carta enviada pelo cardeal Raymond Leo Burke, um dos mais conservadores do clero norte-americano e ferrenho defensor da interpretação rígida da doutrina católica, pelo cardeal Walter Brandmüller e pelos arcebispos eméritos Carlo Caffara e Joachim Meisner.   

O documento foi enviado ao Papa no dia 19 de setembro, mas Francisco não respondeu às "cinco dúvidas" sobre a exortação.   

Por isso, Burke decidiu tornar público o pedido de explicações nesta semana. Eles questionam situações que teriam contradito outros textos católicos ou práticas seculares da Igreja na questão dos divorciados.   

Com sua política de abertura, Bergoglio pediu para que as igrejas pelo mundo não excluam os divorciados que estão em uma nova união porque eles "não estão excomungados", justificando que ninguém "deve ser punido para sempre". No entanto, Burke - que já se envolveu em diversas polêmicas com Francisco - diz que isso não está claro e que cada diocese tem uma prática diferente, o que vem fazendo com que a Igreja "perca muitos fiéis".   

- Jubileu da Misericórdia: O papa Francisco também foi questionado sobre a realização do Jubileu da Misericórdia, que já foi encerrado nas paróquias, mas terá uma celebração especial neste fim de semana. Questionado se o evento foi planejado, o Pontífice revelou que não.   

"Não fiz um plano. As coisas aconteceram. A Igreja é o Evangelho, não um caminho de ideias. Quem descobre que é muito amado, começa a sair da solidão, da separação que o leva a odiar os outros e a si mesmo. Espero que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas por Jesus e se deixem abraçar por ele", disse o sucessor de Bento XVI.   

Apesar de ser convocado, geralmente, a cada 25 anos, um Ano Santo pode ser convocado pelo Pontífice quando ele achar necessário. Desta vez, foi uma maneira de chamar os fiéis para a Igreja e também marcar os 50 anos do Concílio Vaticano II.   

- Ecumenismo: Questionado sobre sua postura de unir os líderes religiosos de todas as crenças, o Papa afirmou que está seguindo apenas um percurso já iniciado por outros sucessores de Pedro.   

"Vem de muito tempo, com passos dos meus antecessores. Este é o caminho da Igreja. Não sou eu. Não fiz nenhuma aceleração. Na medida em que andamos adiante, o caminho parece ser mais veloz", afirmou Bergoglio.   

Recentemente, Francisco foi o primeiro Papa a ir para os eventos de celebração da Reforma Luterana, na Suécia, e recebe frequentemente líderes de muitas religiões no Vaticano.   

- Proselitismo: O sucessor de Bento XVI também foi questionado sobre o atual momento da Igreja Católica e voltou a destacar sua condenação ao proselitismo (a tentativa de conversão para uma doutrina através de discursos).   

"A Igreja não é um time que busca torcedores. A Igreja nunca cresce no proselitismo, mas por atração. O proselitismo entre cristãos é, em si mesmo, um pecado grave [...] e contradiz a dinâmica de como a gente se torna e permanece cristão", disse ao "Avvenire". (ANSA)
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