Cineasta 'político',Roberto Faenza critica divisão na Itália

SÃO PAULO, 21 NOV (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Roberto Faenza, um dos cineastas contemporâneos mais premiados da Itália, está em São Paulo para a 12ª edição do Festival de Cinema Italiano, onde receberá um prêmio pelo conjunto de sua obra. Última pessoa a dirigir o astro Marcello Mastroianni nas telonas, ele é conhecido pelos seus filmes de claros tons políticos ou, segundo suas palavras, "civis". Como o último deles, "A verdade está no céu", que fala sobre o misterioso desaparecimento da adolescente vaticana Emanuela Orlandi, até hoje sem solução. Ocorrido em 1983, o crime permanece escondido nas sombras do menor país do mundo, mas tanto o cineasta quanto a família da vítima têm esperanças de que o papa Francisco ajude a dar por encerrado um caso que já dura mais de 30 anos. A polêmica com o Vaticano foi tema de uma entrevista concedida por Faenza à ANSA no hotel onde está hospedado em São Paulo, durante a qual ele também falou sobre a simplicidade de Mastroianni e o delicado momento político vivido pela Itália. Confira a seguir: ANSA: Você é tido como alguém que faz um cinema político. Como enxerga a situação atual da Itália, com a expectativa pelo referendo de 4 de dezembro? Faenza: Não é que eu faça só filmes políticos, mas faço também filmes "civis", relacionados a questões que interessam para a sociedade. A situação política na Itália está um pouco como em todo o mundo. A eleição de [Donald] Trump diz respeito ao mundo, no sentido de que nós, os cidadãos com certo conhecimento sobre o mundo, não têm mais contato com outra parte do mundo, a mais marginalizada e atingida pela globalização. Na Itália, estamos na mesma situação. É um país dividido em dois. Esse referendo iminente dividiu o país. Talvez, neste momento, fosse melhor não fazê-lo. Em um país cheio de problemas, dividir não adianta, precisaríamos tentar nos unir, a situação é muito difícil.   


ANSA: Há algum personagem da política italiana contemporânea que daria um bom filme, como Berlusconi em "Silvio Forever"? Faenza: Não acredito, porque para fazer um filme é preciso ser espetacular. E não acho que os políticos de destaque tenham a espetacularidade de Berlusconi. [Matteo] Renzi e [Beppe] Grillo são as duas estrelas da política italiana hoje, e não acredito que eles possuam a espetacularidade que Berlusconi teve.   


ANSA: Como foi a resposta do público e do Vaticano ao seu último filme, "A verdade está no céu"? Faenza: A resposta do público foi muito boa, já superamos os 250 mil espectadores, o que é um ótimo resultado. Já o Vaticano se calou. Houve apenas uma resenha muito negativa da revista "Famiglia Cristiana", dizendo que é um filme ferozmente anticlerical. Devo dizer, no entanto, os leitores responderam essa crítica, mais de uma centena, todos a favor do filme.   


Todos. Na realidade, o filme não conta nada que não se saiba, mas colocado tudo junto, causa certa impressão.   


ANSA: O filme estreou na Itália em 6 de outubro. Neste um mês e meio não houve nenhum avanço nas investigações? Faenza: Não aconteceu nada. Houve muita repercussão, mas ninguém foi além. Há elementos para seguir adiante, mas ninguém até hoje teve essa coragem.   


ANSA: Em sua opinião, o Vaticano sabe o que aconteceu com Emanuela Orlandi? Faenza: Até eles admitem que sabem. O próprio papa [Francisco] disse à família que "ela está no céu", mas depois, quando a família quis saber mais, ele não quis recebê-los.   


ANSA: Você espera que Francisco possa mudar de postura e revelar mais detalhes sobre o caso? Faenza: Não digo que amanhã o Papa não possa falar. O filme manterá a atenção sobre o caso, e eu espero que o Papa possa dizer, finalmente, algo a mais. Ele já deu um passo à frente.   


Mas o Vaticano prefere que não se fale sobre esse caso, isso é certo. Agora a família está pensando em recorrer à Corte Europeia de Direitos Humanos, já que na Itália não encontraram justiça. Eu sou otimista, acho que esse Papa, solicitado de novo, dirá algo a mais.   


ANSA: O festival fez, na semana passada, um ciclo de homenagens a Marcello Mastroianni. Como foi trabalhar com ele em seu último filme, "Sostiene Pereira"? Faenza: Eu já conhecia Marcello havia muitos anos e queria fazer um filme com ele havia muito tempo. Quando uma pessoa não está mais aqui, tende-se a falar bem dela, mas Marcello era verdadeiramente único, porque antes de ser um grande ator, era uma pessoa normal. Isso que mais me impressionou. Trabalhei com muitos atores e nunca encontrei uma pessoa tão simples, tão tranquila. Para ele, ser ator era como ser operário. Não se achava uma estrela, se comportava como uma pessoa normal. Era fácil para um diretor trabalhar com ele.   


ANSA: Além de suas qualidades como ator, o que ajudou a criar o mito em torno de Mastroianni? Faenza: As pessoas se reconheciam nele, era alguém do público.   


Não é verdade que o público ama os astros distantes. Às vezes até sim, mas ama muito mais aqueles que vê como parte dele.   


Marcello era o irmão, o marido, o amante, o amigo, era tudo aquilo que uma pessoa pode querer de outra. Ele é inigualável.   


ANSA: O que você conhece do cinema brasileiro? Faenza: Pouco. Conhecia o cinema brasileiro dos tempos da Nouvelle Vague. Hoje não chegam muitos filmes brasileiros na Itália, assim como italianos aqui. Em todo o mundo é assim, os únicos filmes que passam são os norte-americanos.   


ANSA: É sua primeira vez no Brasil? Faenza: Não, já vim duas vezes, mas nunca tinha vindo a São Paulo. Talvez eu venha viver no Brasil porque um amigo me disse que com uma aposentadoria decente se vive melhor aqui que na Itália (risos). E aqui tem uma alegria que nós não temos. Dando uma volta pela cidade, se sente uma vivacidade, uma energia. A Itália é depressiva, o Estado deveria contratar psicanalistas em massa. (ANSA)
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