Derrota de Renzi em referendo pode gerar nova crise na UE

BRUXELAS, 5 DEZ (ANSA) - Após a vitória do "não" no referendo constitucional na Itália e o posterior anúncio da renúncia do primeiro-ministro Matteo Renzi, a União Europeia poderá enfrentar uma nova e grande crise em seu interior.   

Para o professor de de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Kai Lehmann, o futuro da Itália - e por consequência da União Europeia - dependerá dos próximos passos dado pelo governo: se haverá um governo "tecnocrata" até 2018 ou se serão convocadas eleições gerais para 2017.   

"Neste caso, teríamos uma ambiente de muita incerteza, instabilidade e tensão. Isso porque, se a Itália convoca as eleições, teremos eleições importantes na Itália, na França e na Alemanha, os três maiores países da União Europeia. Isso traria muita tensão", destacou à ANSA nesta segunda-feira (5).   

Nesse cenário de eleições, o maior beneficiado seria o partido Movimento Cinco Estrelas (M5S), maior força opositora ao governo de Renzi e líder da campanha pelo "não" no referendo.   

Para Lehmann, o M5S já anunciou que se chegar ao governo, tentará fazer um plebiscito para que os italianos deixem a moeda única da UE, o euro. "Se a Itália deixar o euro, isso causará grandes problemas para os europeus. E se o euro for abandonado, isso será um grande abalo para para a União Europeia", acrescentou.   

Já sobre o líder do M5S, Beppe Grillo, o professor da USP ressaltou que a postura do ex-comediante deixa dúvidas como seria um futuro governo dele.   

"O que me parece, é que ele articula uma postura de ser contra.   

Um futuro governo é muito difícil de prever agora porque ele é contra o sistema, contra o establishment. Mas, é a favor do quê? Uma coisa é derrubar e outra coisa é apresentar uma alternativa de governo sustentável. Então, se ele assumir o governo, ele vai ter que se posicionar. E aí saberemos o que esperar", ressaltou à ANSA.   

- Comissão Europeia: Por sua vez, o porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, destacou em coletiva nesta segunda que o voto dos italianos "foi sobre a Constituição e não sobre a Europa". Ao ser questionado se a decisão ameaça a estabilidade da União Europeia, o representante foi rápido e disse que não.   

"Nós vimos volatilidade nos mercados nos anos passados. Hoje, não é algo que possa nos obrigar a atuar neste sentido. As autoridades estão preparadas para enfrentar esse tipo de situação", acrescentou Schinas.   

No entanto, para o professor da USP, a ideia de que os italianos tenham votado contra apenas a mudança da Constituição "não é verdade".   

"O problema dos plebiscitos é sempre esse: o voto é sobre algo, mas na verdade não é bem isso. A grande maioria dos italianos concorda que é preciso fazer uma reforma profunda. Mas, o que me parece, é que essa foi uma votação contra o 'establishment'.   

Como Renzi defendia o 'sim', a maioria votou pelo 'não' para mostrar descontentamento", disse Lehmann à ANSA.   

- Reformas: Seguindo a mesma linha de alguns comissários europeus, o porta-voz da Comissão Europeia afirmou que "a busca pelas reformas deve continuar" na Itália e que a "onda" iniciada por Renzi "não terminou na noite de ontem".   

A fala é uma referência à série de medidas adotadas pelo premier italiano para promover uma retomada da economia e que tirou a Itália de oito anos de recessão econômica.   

"Confiamos que as forças políticas e as instituições da República oferecerão respostas convincentes", disse ainda.   

Schinas ainda pediu "respeito" ao voto dos italianos e destacando que a flexibilidade econômica, tão defendida pelo premier, "não o ajudou".   

- Crise bancária: Um dos principais argumentos de quem acredita que as mudanças na Itália provocarão graves problemas na Europa diz respeito à crise bancária. Os bancos do país chamam a atenção do mercado econômico porque tem um alto nível de créditos deteriorados em suas carteiras. Calcula-se que esses empréstimos, que dificilmente serão quitados, totalizem cerca de 360 bilhões de euros, que representam 17% do total de créditos concedidos no país.   

Apesar do cenário preocupantes, Schinas se limitou a dizer que "estamos em contato com as autoridades italianas, mas não comentaremos casos individuais".   

Quem também comentou sobre a crise bancária na Itália foi o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. De acordo com ele, o resultado do referendo "não muda nada a situação econômica na Itália ou nos bancos italianos".   

"Os problemas que temos hoje são os mesmos de ontem e é preciso preocupar-nos. A Itália é uma economia forte, uma das maiores, com as instituições fortes e o futuro governo deve enfrentar a situação econômica. Mas, o problema de enfrentar o problema de alguns bancos em particular não para", destacou o presidente do Eurogrupo.   

Entre as principais instituições bancárias com os chamados "títulos tóxicos", estão o Monte dei Paschi di Siena (MPS), considerado o banco mais antigo ainda em atividade no mundo.   

(ANSA)
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