Discurso de posse de Trump frustra quem esperava novo tom

Por Lucas Rizzi SÃO PAULO, 20 JAN (ANSA) - Em seu primeiro discurso como líder da maior potência do planeta, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter decepcionado aqueles que esperavam que as amarras do poder moderassem o tom protecionista adotado pelo republicano durante a campanha.   

Ignorando quase que completamente o cenário internacional, o magnata fez um pronunciamento voltado ao público interno, carregando nas tintas nacionalistas que coloriram sua trajetória rumo à Casa Branca.   

"Os Estados Unidos começarão a vencer de novo. Vamos trazer de volta nossos empregos, nossas riquezas e nossos sonhos. Vamos construir novas estradas, aeroportos, túneis e ferrovias por todo o país. Vamos tirar nosso povo do seguro-desemprego e comprar produtos americanos", disse.   

Para o professor Arnaldo Francisco Cardoso, da Universidade Mackenzie, o tom usado por Trump na posse reuniu elementos já explorados na campanha e incorporou um "conhecido populismo que simplifica os problemas e fortalece a ideia de que basta a vontade do presidente".   

"O discurso frustrou aqueles que aguardavam que o presidente assumisse uma postura mais realista. Foi um discurso bastante voluntarista, de que basta a vontade de um homem para transformar a realidade", afirma o especialista em entrevista à ANSA.   

Para Cardoso, era compreensível que a estratégia do nacionalismo fosse utilizada na disputa eleitoral, até porque acabou resultando eficiente, mas é "preocupante" que a mesma abordagem tenha se mantido na posse. "Ele tenta insuflar o cidadão médio norte-americano para manter vivo o sentimento de que há uma mudança ocorrendo na América. Faz a gente crer que ele governará pretendendo manter esse sentimento", acrescenta.   

Já na opinião de Marcus Vinicius de Freitas, professor visitante da Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, o pronunciamento de Trump era o que se podia esperar do novo presidente neste momento. Em sua visão, o discurso abordou três grandes desafios do republicano: fazer a economia crescer de maneira perene, criar empregos qualificados e restaurar a confiança nos Estados Unidos como nação. "A postura isolacionista pode levar as pessoas a entenderem que o país está se voltando para si mesmo e, com isso, deixando de ter um papel importante internacionalmente falando", explica.   

De fato, Trump praticamente ignorou assuntos de geopolítica internacional. Relações com a China, proximidade com a Rússia, crise de refugiados, postura em relação a Cuba e Irã: nada disso apareceu nas palavras do republicano. O único tema de interesse global abordado por ele foi o terrorismo.   

"Eliminaremos o radicalismo islâmico da face da terra", prometeu o presidente, usando um termo jamais empregado por Obama. "O discurso foi quase todo voltado para questões domésticas: emprego, educação, segurança, drogas, economia. Imagino que a ausência de temas importantes para a política externa norte-americana tenha provocado temor no mundo pela simplificação de problemas complexos", ressalta Cardoso.   

O republicano também usou seu pronunciamento inaugural para fazer um apelo por união, mas a chance de sucesso dessa empreitada remete ao clássico bordão que ajudou a eleger Bill Clinton: "É a economia, estúpido!". "Para unir o país, ele precisa de resultados. Se tiver, vai unir. Se não tiver o resultado esperado, não vai conseguir", completa Freitas. (ANSA)
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