Funcionária italiana achou que avalanche em hotel era boato

PESCARA, 24 AGO (ANSA) - A transcrição de uma conversa entre Quintino Marcella, chefe de um dos sobreviventes da avalanche no hotel Rigopiano, centro da Itália, e uma funcionária de alto escalão da província de Pescara ajuda a explicar a demora na chegada do resgate ao local da tragédia.   

Revelado pelo jornal "la Repubblica", o diálogo mostra um homem desesperado e tentando convencer uma interlocutora incrédula de que o prédio havia desabado. "Sou Marcella de sobrenome, Quintino de nome. Meu cozinheiro me contatou no WhatsApp há cinco minutos, o hotel Rigopiano desabou, não tem mais nada. Ele estava lá com a esposa, os filhos pequenos... Intervenham, subam lá", diz.   

Ele é dono de um restaurante na cidade de Silvi Marina, e seu cozinheiro é Giampiero Parete, que escapou da avalanche porque tinha ido até o carro buscar um remédio. Sua esposa, Adriana, e seus filhos, Gianfilippo e Ludovica, passaram mais de 40 horas debaixo dos escombros, mas foram resgatados com vida.   

Marcella conversava com uma alta funcionária da província de Pescara, onde fica Farindola, o município do hotel Rigopiano. O telefonema foi registrado às 18h20 (horário local) da última quarta-feira (18), pouco mais de uma hora depois da tragédia.   

"Essa história [do desabamento] circula desde a manhã. Os bombeiros fizeram verificações em Rigopiano, o que caiu é o estábulo de Martinelli", responde a servidora, que não teve seu nome identificado.   

Ela fazia menção ao estábulo de Pietropaolo Martinelli, um produtor de queijos de Farindola, que fica a poucos quilômetros do Rigopiano e cujo teto havia caído por conta dos terremotos daquela manhã. Em certo ponto, a funcionária pergunta o nome do cozinheiro. "Giampiero Parete. Aquele da pizzaria, o filho de Gino...", responde Marcella.   

"Sim, conheço muito bem o filho de Gino, conheço ele, conheço a mãe. Desde a manhã circula essa coisa. O 118 [serviço de emergência da Itália] me confirma que falaram com o diretor [do hotel Rigopiano, Bruno di Tommaso] duas horas atrás, me confirma que não desabou nada, todos estão bem", ironiza a servidora.   

Em seguida, a mulher ainda fala que Marcella pode ter sido alvo de um trote: "A mãe do imbecil está sempre grávida [ditado popular que significa que existem imbecis em abundância]. Dá para ver que te pegaram...". Sua hipótese é que alguém teria usado o celular de Parete para enganar o chefe, que ainda tenta insistir com a funcionária, porém sem sucesso.   

"Não sei se você se dá conta da situação. Temos gente nas ruas, gente com diálise, idosos... E eu aqui com você. Tente você entrar em contato com o diretor. Não é um descortesia. Tchau", completa a funcionária. O diretor do hotel, Bruno di Tommaso, estava na cidade de Pescara no momento da avalanche, por isso não poderia saber da tragédia.   

Giampiero Parete contatou o serviço de emergência às 17h08 (horário local) de quarta-feira. Os primeiros socorristas só chegaram ao local do desastre às 4h25 de quinta (19), mais de 11 horas depois. Até o momento, o balanço oficial da avalanche no Rigopiano contabiliza 16 mortos, 11 sobreviventes e 13 desaparecidos.   

Confira abaixo a transcrição da conversa: Marcella: Me ouve? Funcionária: Sim, te ouço.   

Marcella: Sou Marcella de sobrenome, Quintino de nome. Meu cozinheiro me contatou no WhatsApp cinco minutos atrás, o hotel Rigopiano desabou, não tem mais nada... Ele está com a esposa, os filhos pequenos... Intervenham, subam lá.   

Funcionária: Essa história circula desde a manhã. Os bombeiros fizeram verificações no Rigopiano, o que caiu foi o estábulo de Martinelli.   

Marcella: Não, não! Meu cozinheiro me contatou no WhatsApp cinco minutos atrás, as crianças estão debaixo... Ele está chorando no carro... É um homem sério, por favor.   

Funcionária: Olhe, você tem o número dele? Passe o número do telefone... Mas desde a manhã circula essa história. Pelo que sabemos, só o estábulo caiu. O que posso lhe dizer? Como se chama o cozinheiro? Marcella: Giampiero Parete. É aquele da pizzaria, o filho de Gino.   

Funcionária: Sim, conheço muito bem o filho de Gino, conheço ele, sua mãe. Desde a manhã circula essa coisa. O 118 me confirma que falaram com o diretor [do Rigopiano] duas horas atrás, me confirma que não desabou nada, estão todos bem.   

Marcella: Mas como é possível? Funcionária: A mãe do imbecil está sempre grávida. O celular...   

Dá para ver que te pegaram...   

Marcella: Mas com seu número? Funcionária: Sim. Duas horas atrás, o 118 falou com o hotel. Não estou te dizendo uma mentira! Se tivesse desabado, acha que estaríamos aqui parados? Marcella: Entre em contato com o diretor...   

Funcionária: Não sei se você se dá conta da situação. Temos gente pelas ruas, gente com diálise, idosos. E eu aqui com você... Tente você entrar em contato com o diretor. Não é descortesia. Tchau. (ANSA)
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