Brasileira pede extradição de casal italiano por maus-tratos

ROMA, 07 FEV (ANSA) - Após o ex-ativista Cesare Battisti, o ex-banqueiro Henrique Pizzolato e o mafioso Pasquale Scotti, mais um caso de extradição pode movimentar as relações entre Brasil e Itália nas próximas semanas.   

Desta vez o episódio tem tons menos políticos e envolve uma brasileira que trabalhou como empregada doméstica para um casal da província de Verona, no norte italiano, e agora acusa seus patrões de violência física e psicológica, inclusive com conotação sexual.   

A mulher foi funcionária da família entre 2009 e 2010 e, segundo o jornal "Corriere della Sera", teria sido demitida por não cuidar bem de seus quatro filhos, o que motivou a abertura de uma ação por parte dos cônjuges contra ela.   

Alguns anos depois, descobriu-se que a brasileira havia denunciado o casal na Bahia, cujas autoridades judiciárias pediram, em meados de 2015, a extradição da esposa, que é ítalo-brasileira. Um ano mais tarde, foi enviada a solicitação referente ao marido.   

A extradição da mulher chegou a ser acolhida pela Corte de Cassação de Roma, espécie de Supremo Tribunal Federal da Itália.   

No entanto, no último dia 2 de fevereiro, o ministro da Justiça Andrea Orlando assinou um decreto rejeitando sua entrega às autoridades do Brasil.   

Já o pedido de extradição do marido está em tramitação, e o caso deve ser discutido pela Corte de Apelação de Veneza nesta quarta-feira (8). A Procuradoria da capital do Vêneto também abriu um inquérito para investigar os supostos maus-tratos contra a brasileira, porém ainda não anunciou se indiciará o casal, que também é suspeito de manter a empregada em condições análogas à escravidão.   

Assim que saiu na imprensa italiana, esse episódio provocou duras críticas contra a simples possibilidade de extradição e comparações com Cesare Battisti. Membro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) nos anos 1970, o ex-ativista foi condenado à prisão perpétua em seu país por "terrorismo" e envolvimento em quatro assassinatos.   

Para escapar da cadeia, ele mudou para a França, mas fugiu quando teve sua extradição autorizada. De lá, viajou ao México e, em seguida, ao Brasil, onde foi preso em 2007. O STF também chegou a autorizar sua expulsão, mas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu, no último dia de seu segundo mandato, mantê-lo no país.   

"Obviamente, que a magistratura continue seu caminho, verificando todos os fatos e, caso sejam confirmadas as acusações, condenando essas pessoas segundo nossos códigos, mas não absoluto à extradição", declarou o senador Roberto Calderoli, do partido ultranacionalista Liga Norte.   

Para o parlamentar, Roma não deve aceitar o pedido de um Estado que "já demonstrou não reconhecer" a autoridade da Justiça italiana, "negando por mais de 10 anos a extradição de um criminoso do calibre de Cesare Battisti". A opinião é compartilhada pela deputada Elvira Savino, do conservador Força Itália, que apontou "contradições" na postura do Brasil.   

"As autoridades brasileiras negam há anos a extradição à Itália do terrorista vermelho Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua por diversos homicídios, mas agora pedem a extradição de dois italianos, não por causa da execução de uma sentença transitada em julgado, mas com base na simples denúncia de uma cidadã", disse.   

Depois do "caso Battisti", outros dois episódios de extradição envolvendo Brasil e Itália tiveram final positivo para os dois países. O primeiro foi o do ex-banqueiro Henrique Pizzolato, condenado no processo do "mensalão" e entregue a Brasília em outubro de 2015, mais de 600 dias depois de ter sido capturado em Maranello, no norte da Península Itálica.   

O segundo foi o de Pasquale Scotti, ex-assassino da Camorra, a máfia napolitana, e detido em Recife. Sua extradição para a Itália foi realizada em março de 2016. (ANSA)
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