Holanda vai às urnas e inicia ano eleitoral decisivo para UE

Por Lucas Rizzi SÃO PAULO, 14 MAR (ANSA) - Nesta quarta-feira (14), quase 13 milhões de eleitores serão chamados às urnas para escolher os 150 membros da Câmara dos Representantes e o próximo primeiro-ministro da Holanda, em uma disputa que é acompanhada com atenção pela União Europeia.   

A votação será a primeira de três eleições cruciais para o futuro do bloco (depois virão França e Alemanha) e um teste para os sentimentos de um país rotulado frequentemente como o mais tolerante da Europa.   

O grande personagem do pleito é, sem dúvidas, o Partido para a Liberdade (PVV), liderado pelo eurocético e ultranacionalista Geert Wilders, que hoje é apenas a quinta maior legenda no Parlamento, mas pode sair das urnas como a principal força política da Holanda.   

Do outro lado da disputa está o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD), do primeiro-ministro conservador e liberal Mark Rutte, que tenta frear o avanço populista no país. Sempre vistas com reservas, as últimas pesquisas colocam o VVD com uma vantagem sobre o PVV que varia entre três e 11 pontos, mas o partido de Wilders liderou durante boa parte da campanha.   

Outros atores que aparecem com destaque são o Apelo Democrata-Cristão (CDA), de centro-direita, o liberal-progressista Democratas 66 (D66) e o GroenLinks, partido ambientalista de centro-esquerda e liderado por Jesse Klaver, tratado na Holanda como "sósia" do canadense Justin Trudeau. O que parece certo é que as urnas darão forma a um Parlamento bastante fragmentado.   

O atual governo é fruto de uma aliança entre o VVD e o Partido Trabalhista (PvdA), uma das vítimas da derrocada social-democrata na Europa: de 38% dos votos nas eleições de 2012, a legenda patina no patamar de 10% nas pesquisas para este ano. Com isso, é provável que, independentemente de quem seja, o vencedor terá de negociar com mais de uma força para formar um gabinete - e quanto mais partidos, mais instabilidade.   

"A questão é saber se o fenômeno Trump e 'Brexit' vai continuar, e se isso de alguma forma se refletirá nas eleições na Holanda", disse, em entrevista à ANSA, Marcus Vinicius de Freitas, professor visitante da Blavatnik School of Government, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.   

Guardadas as devidas proporções, a Holanda vive situação semelhante à de Reino Unido e Estados Unidos: desemprego em baixa e economia em crescimento, mas com o aumento do fosso entre ricos e pobres e da chegada de solicitantes de refúgio.   

Além disso, as pesquisas apontavam derrotas de Donald Trump e dos eurocéticos britânicos nas urnas, mas ambos acabaram vitoriosos.   

Apesar de a Holanda ser um país pequeno, um eventual triunfo da extrema-direita teria um peso muito maior para a União Europeia do que o "Brexit". A nação dos canais é uma das fundadoras do bloco e sediou a assinatura do acordo que o criou oficialmente, o Tratado de Maastricht, em fevereiro de 1992, além de ser historicamente pró-Europa.   

"Se houver uma eleição da extrema-direita na Holanda, isso pode fazer com que a UE colapse, perdendo um de seus membros originais. De alguma forma, pode virar a profecia que se autocumpre, levando a França para o mesmo caminho", acrescenta Freitas.   

É improvável que o partido de Wilders consiga os números para chegar ao governo, mas o PVV já impôs sua agenda populista ao debate político, concentrado em uma questão migratória que é mais midiática do que substancial e na hipotética "islamização" do país.   

Além disso, uma votação expressiva na legenda ultranacionalista, mesmo que derrotada, forçaria os grupos que formarão o novo governo a dar uma resposta a esse eleitorado - algo parecido com o que aconteceu com o então primeiro-ministro David Cameron ao convocar o referendo sobre a presença do Reino Unido na UE.   

Turquia - Os últimos dias da campanha também foram marcados por uma crise diplomática com a Turquia, causada pela decisão de Rutte de proibir a presença de dois ministros de Ancara em comícios para a comunidade turca de Rotterdam. O veto irritou o presidente Tayyip Erdogan, que chamou a Holanda de "nazista".   

Por outro lado, analistas políticos locais afirmam que a postura do premier pode ter dado a ele uma imagem de "estadista" em um momento delicado da disputa, opinião que é compartilhada pelo professor Freitas. "Denota uma atitude de força e autoridade nesse momento final. Se a opinião pública perceber que Rutte está mostrando autoridade, isso pode ter resultado positivo", afirma.   

As eleições na Holanda serão realizadas entre 7h30 e 21h (3h30 e 17h em Brasília), e pesquisas de boca de urna sairão imediatamente após o fechamento das urnas. (ANSA)
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