Especial/Ataque dos EUA na Síria pode mudar rumo de conflito

SÃO PAULO, 7 ABR (ANSA) - Por Tatiana Girardi - O lançamento de mais de 50 mísseis norte-americanos contra a base militar síria de Shayrat, próximo à cidade de Homs, pode dar início a um novo capítulo na longa e penosa guerra civil da Síria.   

Durante os seis anos do conflito, completados no último mês de março, os Estados Unidos sempre criticaram o governo do presidente, Bashar al-Assad, pedindo sua saída, mas limitavam seus ataques em território sírio às áreas dominadas pelos grupos terroristas Estado Islâmico (EI, ex-Isis) e Frente al-Nusra, braço da Al-Qaeda na Síria.   

No entanto, desde que o atual presidente, Donald Trump, assumiu a Casa Branca, o discurso contra Assad foi amenizado e o foco era total contra o EI. Porém, um ataque químico supostamente cometido pelo regime de Assad, e que deixou mais de 80 mortos, foi uma nova peça no tabuleiro que parece ter mudado a postura do governo Trump.   

Dizendo ser uma resposta à ação, Trump ordenou o primeiro ataque direto dos EUA contra uma base militar de Assad. Para o professor de Relações Internacionais da Faculdade de Belas Artes, Sidney Ferreira Leite, o ataque desta quinta-feira (6) significa uma mudança de rumo muito importante no conflito "não pela sua dimensão propriamente militar", mas sim de uma "mudança de estratégia do governo Trump".   

"Voltamos a um cenário complexo, de dois anos atrás, em que os EUA com seus aliados visavam desestabilizar ou até mesmo derrubar o governo de Bashar al-Assad e do outro lado Rússia, Irã e o Hezbollah dando sustentação externa ao governo Bashar al-Assad - isso lidando com os autores estatais", afirma Leite à ANSA.   

"E internamente, acho que a consequência mais importante é que o Estado Islâmico e a Al-Qaeda saem de uma posição de defesa e de tentativa de sobreviver para um cenário mais confortável, que pode levar inclusive a uma ofensiva sobre as cidades que o Bashar al-Assad retomou nos últimos meses", acrescenta o professor.   

Já o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Juliano da Silva Cortinhas, aponta, além de uma mudança de postura do governo norte-americano, que o ataque de ontem também pode significar um "tiro de aviso".   

"Até agora tivemos o primeiro ataque, bastante localizado, que pode significar um sinal que os americanos estão inclinando-se de mudar de direção, como se fosse um tiro de aviso. 'Olha, nós estamos seguindo de perto o que está acontecendo e estamos cada vez mais inclinados a atuar, a mudar o nosso padrão de atuação em relação a Síria'. Então, essa é uma segunda perspectiva", ressalta Cortinhas à ANSA.   

Para a economista e professora na Faculdade de Economia e Administração da USP, Lenina Pomeranz, é "difícil prever" quais serão os próximos passos de Trump e o que de fato significa essa sua postura de mudança.   

"Em relação aos seus próximos passos, é difícil prever dada a volatilidade do seu comportamento e a imprevisibilidade de suas ações, por um lado; e sem entrar em considerações sobre as opiniões e pressões a que está submetido no exercício do seu mandato - e a necessidade de afirmar-se como mandatário do país, num quadro maior de transformações da geopolítica internacional, por outro lado", explica a economista.   

- Relação EUA x Rússia: Desde o início da guerra síria, Rússia e EUA tiveram papéis bem diferentes no conflito sírio. Enquanto o governo de Vladimir Putin sempre se mostrou um fiel aliado de Assad, a quem considera fundamental para a transição política pacífica no país quando os conflitos cessarem, Obama e os aliados europeus sempre condenaram essa postura e chamam Assad de ditador.   

No entanto, com a eleição de Trump, as acusações de que o novo presidente dos EUA era "amigo" de Putin - e até mesmo de uma suposta interferência russa nas eleições presidenciais -, deixaram uma "névoa" sobre qual seria a postura norte-americana com o governo republicano. Mas, a julgar pelas reações iniciais de ambos o governo, o clima tenso entre os dois Estados continuará. "Se a gente for pensar em política de Estado, era muito incoerente a proposta do Trump de só focar no EI e deixar o governo de Bashar al-Assad permanecer. Isso entre outros aspectos, descontenta muito seus fortes aliados na região, notoriamente, Arábia Saudita e Israel. Então, não me surpreende a ação americana, do Estado americano. Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde porque os interesses do Estado americano e do Estado russo, não só nessa região, são muito divergentes", ressalta Leite. Já Pomeranz afirma que as relações entre as duas nações já "não estavam bem" e "seguramente, o bombardeio americano na Síria as tornará piores". "As informações dizem que os russos foram informados da ação e que cuidados foram tomados pelos militares americanos para não afetarem o pessoal russo que está em solo sírio. O que parece indicar que não houve a intenção, da parte dos americanos, de executar uma ação maior, que envolvesse a Rússia", diz a professora da USP ressaltando que os primeiros sinais mostram que os russos "não estão dispostos a intervir militarmente". Para o professor da UNB, no entanto, a solução do conflito na Síria deve ser buscada de maneira conjunta pelas duas nações. "Já houve declarações de lado a lado, os EUA condenando um possível ataque químico - que eu entendo que eles ainda não apresentaram provas suficientes de ataque - e Rússia e o regime do Bashar al-Assad declarando que não houve provas consistentes e condenando o ataque americano na questão da cidadania. Então, essa retórica bastante acirrada é muito comum nesse início de negociação", diz Cortinhas. "Agora, eu entendo que é ainda mais provável uma ação coordenada entre EUA e Rússia - não só pela possibilidade de que uma escalada leve a um conflito que a gente não conhece as dimensões", acrescenta.SEGUE
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