Itália apura suspeita de rede de tráfico em ONGs imigratórias

CATANIA, 2 MAI (ANSA) - Uma nova polêmica sobre a chegada de imigrantes ilegais à Itália está causando confusão e troca de acusações em diversas esferas do poder - desde o governo até a Justiça. O caso refere-se a uma suposta investigação sobre o financiamento de ONGs por traficantes de pessoas, que fazem a travessia entre o norte da África e as ilhas italianas.   

A polêmica começou na semana passada, quando o presidente do partido de extrema-direita e ultranacionalista Liga Norte, Matteo Salvini, acusou as entidades filantrópicas de serem financiadas por traficantes de pessoas. Durante a semana, ele ainda afirmou que havia uma investigação "sigilosa" sobre o tema.   

O caso ganhou ainda mais polêmica quando o procurador de Catânia, Carmelo Zuccaro, sugeriu que algumas entidades estaria "sendo financiadas por traficantes" para, entre outras coisas, "desestabilizar a economia italiana para tirar vantagem". Por conta da entrevista, Zuccaro será alvo de investigação do Conselho Superior de Magistratura (CSM) da Itália.   

No entanto, a postura de Zuccaro causou uma discussão pública entre o ministro do Interior, Angelino Alfano, que afirmou que o procurador "colocou luz" sobre o tema, e o ministro da Justiça, Andrea Orlando, que destacou que as afirmações são "inaceitáveis".   

Nesta terça-feira (2), o procurador de Justiça de Siracusa, Francesco Paolo Giordano, negou que exista um "dossiê" de investigação contra ONGs que atuam no resgate a imigrantes no Mar Mediterrâneo.   

Assim como Catânia, Siracusa é uma das regiões que mais recebem imigrantes ilegais que chegam pela rota marítima iniciada no norte da África.   

Giordano prestou esclarecimentos à Comissão de Defesa do Senado a Itália e ressaltou que "a nós, como entidade, não há nada no que tange à possível ligação oblíqua ou comprometedora entre ONGs ou parte delas com traficantes de imigrantes".   

Em sua fala, o promotor descartou que há entidades que são mais "colaborativas" com os órgãos judiciais do que outras, "mas nós nunca interpretamos isso como um obstáculo às investigações, mas como uma postura ideológica, um tipo de coerência porque eles são a favor dos imigrantes e não da polícia".   

No entanto, Salvini voltou a acusar as ONGs por crimes nesta terça, dizendo que "em breve, surgirão os primeiros presos" e voltando a dizer que há uma investigações em curso.   

A postura do líder ultranacionalista causou reclamações tanto da Conferência Episcopal Italiana (CEI), uma das mais altas instâncias da Igreja Católica, como da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) - que resgatou milhares de pessoas na região nos últimos anos.   

De acordo com a MSF, há "uma campanha instrumentalizada e de manipulação" que causa "indignação" nos membros da entidade.   

"Não temos nada a esconder, mas estamos assistindo a uma constante série de acusações e invenções que não são mantidas por nenhuma prova. Não se faz jogo político sobre a pele de pessoas. Isso é obsceno, desumano", disse o responsável pelos programas migratórios do MSF, Stefano Argenziano.   

Já a entidade católica afirmou que é "correto que a Procuradoria e a Magistratura fiquem vigilantes e assumam a situação atual no Mediterrâneo porque os imigrantes são vítimas duplamente".   

"Mas, o fogo político que não distingue ninguém sobre as novas ONGs que operam no Mediterrâneo para salvar vidas humanas - perante às mortes que ultrapassaram mais de cinco mil vítimas em 2016 - com recursos de fundações bancárias e de empresas privadas, da sociedade civil, é um ato hipócrita e vergonhoso", diz a nota.   

Entre 1º de janeiro e 23 de abril de 2017, foram 36,8 mil, contra 25,3 mil no mesmo período do ano passado, uma alta de 45%, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).   

Além disso, mais de 1 mil pessoas morreram ou desapareceram durante a travessia. Nos últimos meses de 2016, cerca de 40% dos resgates no Mediterrâneo Central foram feitos por ONGs. (ANSA)
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