Apesar de reformas,política externa de Temer fica em 2º plano

SÃO PAULO, 12 MAI (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Há exato um ano, o Senado abria o processo de impeachment contra Dilma Rousseff e dava início ao governo de seu vice, Michel Temer. De lá para cá, muita coisa mudou, mas uma área em específico vem mantendo certa continuidade, ainda que o tom do discurso pareça indicar outra coisa: a política externa.   


Na partilha do poder entre os partidos que lutaram pela queda de Dilma, Temer delegou o Ministério das Relações Exteriores ao PSDB, primeiro com José Serra e depois com Aloysio Nunes, mas, diferentemente do que o embate entre tucanos e petistas poderia sugerir, os últimos 12 meses não marcaram uma inversão de rota no Itamaraty.   


"As bases daquilo que Dilma já vinha fazendo foram mantidas em sua essência. Algumas coisas pontuais que seu governo tinha conseguido, como melhorar as relações com os Estados Unidos, sobretudo depois da espionagem, algumas vitórias na OMC [Organização Mundial do Comércio] e na questão do aquecimento global e alguns acordo que tinha começado a costurar com Colômbia, México e Chile, foram mantidas no governo Temer", explica Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da ESPM.   


Para seu colega Oliver Stuenkel, coordenador do MBA em relações internacionais da FGV, há um aspecto histórico que contribui para essa continuidade: apesar da retórica, a política externa brasileira costuma mudar pouco ao longo dos anos. Além disso, Temer tem um mandato curto e muitos desafios políticos e econômicos para enfrentar, o que limita sua capacidade de fazer diplomacia.   


"Diante dessa situação, era esperado que pouco mudasse de fato.   


O Itamaraty não reage rapidamente a mudanças de chanceleres.   


Demora um pouco para a equipe se reorganizar", afirma Stuenkel.   


Havia, por exemplo, o temor de que o peemedebista desse pouca importância aos Brics (que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e sempre foi uma prioridade dos governos petistas), mas suas principais viagens foram justamente para Índia, na cúpula do grupo, e China, para uma reunião do G20.   


Mudanças - Mas isso não quer dizer que nada tenha mudado. A alteração mais visível se deu na relação com a Venezuela. Ainda com Serra como chanceler, o Brasil pressionou para suspender o país do Mercosul e fez duras e constantes críticas ao governo de Nicolás Maduro. No entanto há dois fatores a ponderar: ainda antes do impeachment de Dilma, Brasília já tinha começado a se afastar de Caracas, e a situação do país vizinho se agravou drasticamente no último ano.   


Outra mudança se deu na própria figura do ministro: na era petista, o Itamaraty sempre foi chefiado por diplomatas de carreira, sequência interrompida pela nomeação de Serra como chanceler. "Isso tem vantagens porque [o ministro] tem mais peso político e fica bem na briga por tempo e recursos do presidente.   


Mas tem um custo, já que não são diplomatas e precisam de mais tempo para entender o jogo", salienta Stuenkel.   


Essa necessidade de tempo para compreender os meandros da política externa favorece a manutenção do que já vinha sendo feito, principalmente se acontece uma troca de comando em tão pouco tempo. Em fevereiro, Serra renunciou ao Itamaraty alegando problemas de saúde e foi substituído por Aloysio, que também terá vida curta no cargo, já que deve se descompatibilizar até março do ano que vem para concorrer ao Senado ou até mesmo ao governo de São Paulo.   


Para Casarões, o Itamaraty dos últimos 12 meses também tem se voltado mais para questões comerciais, embora os resultados disso ainda sejam "muito vagos". "Acordos comerciais demoram para ser assinados, é um processo que depende de outras partes.   


Grandes acordos que se esperava desembaraçar, como entre União Europeia e Mercosul, ainda não foram para frente", diz o professor. Ele explica que essa ênfase na dimensão econômica da política externa ocorreu sobretudo pela ação de Serra, que sempre quis ter um papel central no comércio exterior.   


Outro ponto que vem ganhando força é a aproximação do Brasil com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), algo que faz parte da narrativa do governo para tentar melhorar a imagem do país no mundo, principalmente no âmbito comercial. Segundo Stuenkel, a formalização do pedido brasileiro de adesão à OCDE pode ser o destaque dessa reta final da era Temer, que não deve ser lembrada pelas suas ações na política externa.   


Serra x Aloysio - Também há nuances entre os dois tucanos que chefiaram a política externa do governo Temer. Serra cultiva antigas ambições presidenciais e nunca deu pistas de que terminaria sua carreira no Itamaraty, enquanto Aloysio se mostra mais envolvido com as questões da pasta.   


"Grande parte do que o Serra fez tinha como pressuposto muito claro qualificá-lo para a corrida presidencial de 2018. O comércio, porque em geral dá resultados mais rápidos que a diplomacia. E a Venezuela, porque ataca frontalmente o legado petista e atrai o eleitorado anti-PT", ressalta Casarões.   


Já Stuenkel aponta que o ex-governador de São Paulo parece mais cético em relação ao livre comércio do que seu sucessor no Itamaraty e que Aloysio indica ser uma pessoa mais aberta a ideias novas. "O Serra era muito convencido do que ele já sabia, mas cometeu uma série de gafes, como o comentário machista no México [o então ministro disse que o país era um 'perigo' por ter mulheres ocupando quase a metade do Senado]", afirma o coordenador da FGV.   


Para ele, Serra também não teve boa atuação nas Nações Unidas, e Aloysio parece estar mais "empolgado" com o cargo. "Talvez também por não ter tido essa obsessão por ser presidente, acho ele um pouco mais dedicado", completa. (ANSA)
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