Na Bienal de Veneza, artista brasileiro critica política

SÃO PAULO, 13 MAI (ANSA) - Por Ana Ferraz. Antes mesmo da abertura oficial da 57ª edição da Bienal de Arte de Veneza, que aconteceu neste sábado, dia 13, o artista Paulo Bruscky, um dos quatro brasileiros convidados para expor no Pavilhão Internacional do evento, colocou em discussão o tema do festival deste ano, "Viva Arte Viva", e ressaltou que o fazer artístico já é por si só uma "atividade política". Antes da inauguração, o artista realizou uma performance, já na cidade italiana, que quis questionar qual é a relevância da arte atualmente. De um barco de carga, uma fila de performers, liderada pelo próprio Bruscky, saiu carregando várias caixas de madeira que foram colocadas de forma aleatória no gramado dos famosos Giardini da Bienal.   


No lado de fora de cada uma delas, de vários tamanhos e vazias, haviam selos postais e etiquetas como "frágil", "este lado para cima" e "Arte se Embala Como Se Quer", nome da instalação. A performance quis fazer uma crítica de como a arte é tratada nos dias de hoje, tendo todo o seu significado esvaziado com valores numéricos e cifras e acabando sendo considerada um símbolo de status e riqueza, tornando-se mercadoria. O tema da importância da arte, aliás, é recorrente nos trabalhos do artista, nascido em Recife em 1949. Em uma performance de 1978, por exemplo, Bruscky caminhava pelas ruas de sua cidade entrando em bares, galerias e cafés com uma placa pendurada no pescoço com as perguntas "O que é arte? Para que serve?"', que acabaram nomeando o trabalho. Segundo o brasileiro à ANSA, todas as suas obras se dirigem "a um questionamento", o de "fazer com que as pessoas pensem um pouco sobre a vida".   


Honrado por ter sido um dos escolhidos para expor no pavilhão internacional, o artista disse gostar muito do "projeto de curadoria inovador de Christine Macel", a curadora do festival deste ano que, junto ao presidente do evento, Paolo Baratta, decidiu defender uma Bienal menos politizada e mais voltada ao que "nutre" o artista, ao que o leva a criar a peça. Em resposta a esse posicionamento, Bruscky apenas disse que sempre foi "arte/vida/arte" e ressaltou que "ser artista já é uma atitude política". Assim como o significado da arte, a política sempre esteve presente nas obras do pernambucano. Trabalhando com mídias, áudio-arte, xerografia e outros materiais e técnicas do campo da arte conceitual, durante a década de 1970, o brasileiro foi um dos percussores da arte postal que, como já dizia a crítica Cristina Freire era uma "estratégia de liberdade diante do contexto político opressor" da ditadura militar. "Sempre fui à margem, mais por opção. Fui muito perseguido pela ditadura brasileira, tendo sido preso três vezes. Em sempre trabalhei com diversos mídias, sendo pioneiro no Brasil, em vários delas", comenta Bruscky.   


O artista também conta que essa arte postal, ou arte correio, foi um dos movimentos mais importantes dos quais já fez parte por não ter "nacionalidade, julgamento, premiação" e que em consequência dele "vários artistas da América Latina foram presos e perseguidos, a exemplo de Jorge Caraballo e Clemente Padin (Uruguai), Edgardo-Vigo e Horacio Zabala (Argentina), Guilhermo Deisler (Chile)", além dele próprio. Atualmente, Bruscky continua engajado e faz questão de falar sobre o cenário político nacional. Após ter realizado a instalação "Arte se Embala Como Se Quer" em Veneza, aliás, o pernambucano fez duras críticas ao governo do atual presidente Michel Temer durante um almoço-performance, no qual disse que o país havia passado por outro "golpe". "Em primeiro lugar, me sinto bastante gratificado por estar no pavilhão internacional da bienal, uma vez que não aceitaria participar no Pavilhão do Brasil por discordar de um governo golpista, de extrema direita, liderado por Temer e outros reacionários", disse à ANSA.   


Mesmo assim, Bruscky afirma que admira o trabalho de muitos artistas, inclusive brasileiros: "são tantos que não cabe em uma entrevista", explica, e ressaltou que o que leva do Brasil em seu trabalho é a "esperança". (ANSA)
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