Da Maré à Itália, a orquestra do Brasil que encantou o Papa

SÃO PAULO, 07 JUN (ANSA) - Por Lucas Rizzi - Em janeiro de 1999, o maestro Armando Prazeres sofreu um sequestro relâmpago na porta de uma creche no Rio de Janeiro e foi assassinado. Não se sabe muitos detalhes sobre as circunstâncias do crime, exceto o local onde o carro da vítima foi abandonado: o Complexo da Maré Mais de 18 anos depois, por iniciativa de um dos filhos do maestro, o jornalista Carlos Eduardo Prazeres, um grupo de cerca de 20 jovens deixou esse conjunto de favelas situado na zona norte da capital fluminense para uma viagem de 9 mil quilômetros que os colocaria frente a frente com ninguém menos que o papa Francisco.   


Prazeres é fundador da Orquestra Maré do Amanhã, projeto social que forma músicos na mesma comunidade onde o carro de seu pai fora deixado. No último sábado (3), o conjunto tocou durante um encontro do líder da Igreja Católica com crianças afetadas pelos terremotos no centro da Itália, uma comunhão de jovens vidas que sofreram com as tragédias naturais e humanas de nosso tempo.   


"Eles cantaram umas canções italianas, nós cantamos 'Eu só quero um xodó' [de Dominguinhos] e algumas canções brasileiras. Foi bastante gostoso, uma interação impressionante. Você vê crianças lindas e todas vítimas de uma calamidade", diz Prazeres, em entrevista à ANSA.   


O sonho de tocar para Francisco já era antigo. Em 2013, quando o argentino Jorge Bergoglio assumiu o Trono de Pedro, o jornalista colocou na cabeça que precisava da bênção papal para a orquestra das garotas e garotos da Maré. A oportunidade viria pouco depois, em julho, quando o Papa desembarcou no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude.   


Prazeres procurou a Arquidiocese do Rio de Janeiro e conseguiu encaixar o grupo em um evento no Cristo Redentor, lugar mais simbólico impossível para mostrar o talento dos músicos ao Pontífice. Faltou combinar com São Pedro.   


"No dia 23 [data do encontro], choveu horrores, e o evento foi cancelado. A meninada ficou desconsolada, chorando", conta Prazeres. Foi preciso esperar quase quatro anos para ter uma nova chance: em março de 2017, com a ajuda da produção do "Domingão do Faustão" e do arcebispo Orani João Tempesta, a orquestra foi convidada para se apresentar em junho no Vaticano e concretizar o sonho adiado.   


Surpresa - Os meninos e meninas só ficaram sabendo da viagem em 21 de maio e descobriram que tocariam em um encontro com vítimas dos terremotos quando já estavam na Itália. "A gente só soube que vinha uma semana antes. Foi uma total surpresa, ninguém sabia", afirma David Vicente, 18 anos, um dos jovens que devia ter se apresentado no Cristo Redentor em 2013.   


"Se eu soubesse o que nos aguardava, eu não teria me importado.   


Foi o ápice da minha vida espiritual, pessoal e da minha carreira", acrescenta o músico. Durante a apresentação, a orquestra tocou duas canções argentinas, incluindo o tango "Por una cabeza", de Carlos Gardel.   


"Todos devemos agradecer a esses garotos e garotas que vieram do Rio de Janeiro e tocaram coisas de minha pátria que me comoveram", disse o Pontífice na ocasião, pedindo aplausos para o grupo. Na sala Paulo VI, com todos bem protegidos de qualquer chuva que pudesse cair dos céus vaticanos, o líder católico cumprimentou e abençoou um por um.   


Mas a viagem não se restringiu ao encontro com o Papa: a Maré do Amanhã chegou na Itália dia 30 de maio e só embarcou de volta ao Brasil nesta quarta-feira (7). Nesse período, visitou as cidades históricas de Orvieto, Cassia e Assis, na Úmbria.   


Nesta última, terra do santo que inspirou Francisco, o conjunto fez até um flash mob e foi aplaudido pelas pessoas. "Também fizemos uma escala em Paris, e consegui marcar um tour. Eles ficaram enlouquecidos", diz Prazeres, lembrando que essa foi a primeira viagem internacional da orquestra.   


"Eu tenho 18 anos e nunca tinha viajado internacionalmente. E vir para um lugar tão especial como a Itália, com uma culinária da qual sou muito fã... Nossa história aqui é muito especial em muitos sentidos", afirma Vicente.   


Trajetória - A Orquestra Maré do Amanhã começou a surgir em 2007, quando Prazeres saiu do cargo de administrador da Orquestra Petrobras Sinfônica, a mesma na qual seu pai atuava, e decidiu continuar o projeto do maestro, interrompido pela violência, de levar música para comunidades carentes do Rio.   


O projeto saiu do papel em 2010 e hoje, passada quase uma década, ensina música para 2 mil crianças e jovens de quatro a 18 anos, todos de regiões em situação de risco e carência. Desse total, cerca de 40 participam da Orquestra Maré do Amanhã - com direito a salário, bolsas de estudo em escolas particulares e atendimento psicossocial -, levando um exemplo de superação para todo o Brasil. E agora também para o mundo. (ANSA)
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