Ex-chefão revela ligação de Berlusconi com a máfia

PALERMO, 9 JUN (ANSA) - O ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi foi envolvido em uma investigação que analisa as relações entre grupos mafiosos e o governo italiano no início da décadas de 1990. Nesta sexta-feira (9), foram divulgadas partes de interceptações telefônicas de Giuseppe Graviano, 54 anos, que está preso por várias condenações à prisão perpétua por atentados cometidos entre 1992 e 1994. As gravações telefônicas foram feitas entre fevereiro de 2016 e abril de 2017.   

Graviano era um dos dois chefões da "família Brancaccio", um dos clãs da máfia Cosa Nostra.   

Uma das condenações de Graviano foi o atentado que matou o juiz Paolo Borsellino e cinco de seus agentes de escolta. Ao lado de Giovanni Falcone, da Mãos Limpas, ele liderava as investigações sobre as relações da máfia e do governo.   

Em um dos trechos interceptados, Graviano afirmou que o ex-premier chegou a pedir "uma cortesia", em referência a atentados cometidos pelo grupo naqueles anos.   

"Berlusca me pediu essa cortesia... por isso houve uma urgência.   

Ele queria subir, mas naquele período haviam os velhos e ele me disse que queria uma coisa bonita", afirmou o ex-chefão mafioso a um companheiro de cela.   

"Depois em 1993, houve outras tragédias, mas não eram da máfia, eles disseram que eram da máfia. Então, o governo decidiu colocar o 41 bis", disse o italiano em referência a uma lei que permitia uma tratamento carcerário mais duro para aqueles condenados por ligações com a máfia. A medida foi tomada após a morte de Falcone também pelos mafiosos da Cosa Nostra, que causou a perpétua do então "boss" Salvatore 'Totò' Riina.   

Em outro momento da gravação, Graviano mostra decepção com Berlusconi e o chama de "traidor".   

"Berlusconi, quando começou nos anos 1970, começou com os pés no chão. Agora olha a fortuna que ele tem e olha quem ele é. Quando ele começou a formar um partido, em 1994, ele se embebedou e disse 'não posso dividir aquilo que tenho com quem me ajudou'.   

Tomou distância e agiu como um traidor", diz em um dos trechos.   

"Você sabe o que me fizeram aos 24 anos [em referência a 1994, ano de sua prisão], tenho a família destruída. Para as prostitutas, ele dá dinheiro todo mês e eu estou te esperando até hoje. Você está me fazendo morrer na cadeia sem que eu tenha feito nada", afirma em outra parte da gravação referindo-se aos processos ao qual o ex-premier foi e está sendo investigado pelas famosas festas "Bunga-Bunga".   

Entrentanto, Graviano diz que Berlusconi estaria "tranquilo" porque ele "conhece quem eu sou e meu caráter".   

Após a série de processos que investigaram a relação entre máfia e o Estado italiano, especialmente, no caso da Mãos Limpas, os partidos tradicionais perderam força e o então empresário Berlusconi surgiu como o principal expoente político dessa época.   

Por conta das revelações, os procuradores de Palermo, que lideram há anos as investigações chamadas de "Estado-Máfia", tentaram ouvir um depoimento de Graviano na prisão. Mas, por conta da atual saúde do "ex-boss", não foi possível.   

"Estou destruído psicológica e fisicamente com todas as doenças que tenho. Não posso enfrentar um interrogatório. Mas, quando estiver em condições, eu mesmo vou procurar vocês para esclarecer algumas coisas que vocês me disseram", disse o ex-mafioso aos procuradores.   

As interceptações fazem parte das cinco mil páginas de conversas entregues à Justiça no processo em Palermo e que devem abrir novas frentes de investigação sobre o já vasto caso.   

Por conta das revelações dos diálogos, o senador e advogado do Força Itália, Niccolò Ghedini, defendeu Berlusconi das acusações.   

"Das interceptações de Giuseppe Graviano, depositadas pela Procuradoria de Palermo, composta por milhares de páginas, correspondente a centenas de horas de captações, vieram apresentadas poucas palavras descontextualizadas que se refeririam assertivamente a Berlusconi. Tal interpretação foi destituída de qualquer fundamento, sendo que nunca houve nenhum tipo de contato do presidente Berlusconi - nem direto, nem indireto - com o senhor Graviano", emitiu em nota o senador.   

(ANSA)
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